Uma das coisas que mais incomodam a nós, mães especiais, são os olhares dos outros. Sei que isso é um estágio e conheço muitas mães que já aprenderam a fazer cara de paisagem e seguem seus programas como se nada estivesse acontecendo. Eu estou no meio desse aprendizado. Muitos desses olhares já não me afetam mais… mas muitos ainda fazem estrago na alma. Eles são vários e podem até ser “catalogados”. O primeiro, o mais comum, é o olhar de reprovação. Quando sua criança autista se joga no chão porque não pode subir no pula-pula, que tem uma fila quilométrica, por exemplo, ou faz uma cena épica na hora de ir embora do parquinho ou do supermercado e joga a primeira coisa que ela vê no chão como forma de protesto, parece que o mundo para e as pessoas deixam de fazer o que estão fazendo para prestar atenção na cena.

Se for de birra, é tudo que a criança quer: atenção. Mas, na maioria dos casos dos filhos especiais, não se trata de birra. Não é falta de educação, não é excesso de mimo, não é falta de umas palmadas, muito menos falta de pulso firme dos pais. Se a criança ainda não sabe falar, se ela tem um problema exatamente no campo da comunicação, se jogar no chão, espernear e gritar são formas que ela encontrou para dizer que está triste, frustrada, nervosa… Claro, isso é bonitinho e normal para uma criança de 1, 2 anos. E inconcebível para uma criança de 3 ou mais. Sei que as pessoas não fazem por mal. Mas dói assim mesmo.

Tem uma fase em que os olhares viram comentários e aí as coisas se complicam ainda mais. Precisei contar até 100 várias vezes para não tirar satisfação com pessoas que, sem conhecer a minha família, muito menos o diagnóstico de autismo do Luca, falaram (pelas costas, na maioria das vezes), que se tratava de um menino terrível, sem educação, que isso era fruto de uma mãe ausente, que trabalhava fora e que não tinha tempo para os filhos. Nossa babá ouvia coisas do tipo e tenho certeza que ela não me contava a metade. Nem iria, depois que eu arranquei dela, quase à força, o nome de uma mãe que disse que o Luca (o meu Luca) era intragável. No dia seguinte, cheguei mais cedo do trabalho e fui direto para o play, louca para encontrar a tal mãe. Graças a Deus não a vi, porque depois fiquei com medo do bicho que eu poderia ter virado naquela hora. O tempo passou, a raiva passou, outros comentários do tipo vieram e também foram embora. E a gente vai ficando cada vez mais forte.
Os olhares de reprovação e comentários como esse diminuem na medida em que as pessoas sabem do diagnóstico. Aí vêm os olhares que machucam tanto quanto: os de curiosidade. Eu chegava no parquinho onde babás e mães já sabiam do diagnóstico do Luca e era como se um ET tivesse caído do céu. Todos olhando o comportamento dele, discretamente tirando os filhos de perto (sendo que o Luca nunca foi violento nem com ele nem com outras crianças) e observando como ele interagia (ou deixava de interagir) com outros meninos e brinquedos. Me sentia numa bolha, sendo observada, avaliada a todo momento.

A primeira terapia que o Luca teve foi a comportamental, que é justamente para acabar com esses episódios de birra que tornam qualquer interação ou comunicação impossível. Hoje, quase um ano depois do início dos tratamentos, ele melhorou 90% nesse aspecto. Uma das “lições de casa” da terapeuta era expor o Luca a situações de birra e aplicar as dicas e técnicas que ela pedia: não carregá-lo se ele se jogasse no chão para chamar a atenção ou conseguir alguma coisa e sair de perto ou fingir que está fazendo algo mais interessante para ele se tocar que não vai conseguir o que quer desse jeito. Ou, quando ele jogasse alguma coisa no chão como forma de protesto, a ordem era não pegar de jeito nenhum. Devíamos pedir várias vezes para ele pegar. Se não desse certo, deveríamos pegar na mão dele e buscar o objeto com a mão dele para ele ver que esse tipo de ação tem consequência. e por aí a coisa ia, com outras “técnicas de Supernanny” que significaram um salto enorme na transição do Luca de não verbal para verbal (ele ainda não constrói frases inteiras, mas vai chegar lá!).

Vocês imaginem um parque cheio de crianças, mães, babás e eu tendo de ignorar uma criança que se joga no chão aos berros… saía de perto como se nada estivesse acontecendo e iria ler um livro, ou puxar papo com alguma mãe que na mesma hora me dava olhar tipo: “mas você não vai fazer nada?”. As pessoas não sabiam, mas isso era fazer muita coisa. A nossa babá, claro, tinha de seguir as técnicas à risca. E ouvia críticas de todos os lados, coitada. Uma vez, uma conhecida minha veio me dizer que não era da conta dela, mas a nossa babá deixava o Luca chorar sozinho no chão do parquinho e saía de perto. Dei parabéns para a babá depois disso..rs

Os olhares machucam e perceber que em algum momento esses olhares podem machucar seu filho doem mais ainda. Mesmo sabendo que a maioria das vezes eles não são por maldade. São por curiosidade, ou porque as pessoas têm mania de falar dos outros mesmo… Portanto, fica a dica: antes de julgarem uma criança ou mãe no parquinho pensando que o filho é terrível ou mal-educado, vamos primeiro pelo menos cogitar a possibilidade de ter algum transtorno (não digo nem autismo direto), mas hiperatividade, déficit de atenção, ansiedade… coisas do tipo. Se for só birra mesmo, não é da nossa conta, é?

Um beijo especial,