Meu nome é Patrícia Trindade, sou jornalista, tenho 39 anos, sou mineira, morei minha vida quase toda em Belo Horizonte e há três moro no Rio. Trabalhei 12 anos no Jornal Estado de Minas e agora edito a parte de esportes do Jornal Metro-RJ. Sou casada e mãe de dois tesouros: Thiago, de 5 anos, que tem desenvolvimento típico, e do Luca, de 3, essa alma que Deus nos emprestou para tomarmos conta durante essa viagem que é a vida. Luca está no espectro autista. Costumo dizer que ‘está’ porque o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem vários níveis de comprometimento e as crianças costumam caminhar dentro dele. E, como em um leque, uma escada, você pode tanto cair quanto engatar a primeira rumo à evolução e encontrar portas, saídas e pular muros.

Ser mãe de uma criança especial é como desembarcar sozinha em um país estrangeiro sem mapa, sem conhecer a língua e sem um guia de viagem. É se mudar sem mala e sem cuia para o novo endereço, lamentando não estar no destino que você planejou a vida toda…. É chorar, chorar, chorar e pensar: “Eu devo ter feito algo errado para ter vindo parar aqui!” É repetir um filme na sua cabeça com cada minuto da sua gravidez e dos primeiros dias/meses de vida do bebê em noites longas e sofridas, para tentar descobrir em que momento o trem saiu do trilho…. Mas, aos poucos, motivada por uma força que você não sabe de onde vem, você sai de casa e começa a se familiarizar com a nova língua, com os novos moradores e a ver a beleza nesse novo e inexplorado país. Vê que existe sim vida na nova cidade, e se apaixona por ela, porque ela é parte de você, e tem uma história muito linda, de amor, luta, sobrevivência, humildade e pureza. Aos poucos, você se sente cidadã desse país de guerreiros, que matam um leão por dia e brigam a todo instante contra inimigos invisíveis como preconceito, falta de apoio, de escolas, de profissionais sérios e de estrutura do governo. Com o passar do tempo, depois de devorar livros, artigos na internet, de ir a cursos, seminários e trocar ideia com os moradores mais antigos, você admite que o choque cultural foi como um remédio amargo. Doeu, mas fez e segue fazendo de você um ser humano melhor, mais paciente, amoroso, informado e forte!
Ser mãe de um filho especial e de outro neurotípico é ter passaporte para transitar entre os dois países a todo momento. É tentar diluir as fronteiras físicas desses dois mundos. É encarar a missão de fazer com que um país conheça a língua do outro naturalmente. É tentar fazer com que ambos aprendam que ser diferente não é uma doença. Não pega com o toque, nem com o sorriso. As diferenças fazem a gente aprender.

Hoje, sou uma mãe melhor para o Thiago por causa do Luca. Sou uma pessoa mais humana, informada e com garra de viver por causa do Luca. Ser mãe de filho especial é fácil? Não. É algo que você escolhe? Não. Mas você ama esse filho da mesma maneira, sem preconceito. E descobre o verdadeiro significado do amor incondicional.

É fácil amar uma criança que aprende a falar “mamãe” no tempo certo, que corre sorrindo para os seus braços quando te vê e responde às suas brincadeiras com risadas e abraços. O desafio é amar um bebê que não olha no seu olho, não liga se você está ou não ao lado dele, não responde quando você chama, não brinca com os brinquedos que você compra, não fala “mamãe” nunca e você não sabe se um dia ela vai ser capaz de ter o mínimo de independência para se virar numa eventual ausência sua. E mesmo assim, você ama esse bebê mais do que qualquer outra coisa na vida. E é isso que nos faz ser mães especiais.
Estarei sempre passeando nessa pracinha gostosa, contando um pouco da minha experiência nesse país que tem dias chuvosos sim! Mas tem também muitos deliciosos dias de sol!