O medo é inerente ao ser humano, está intimamente relacionado ao nosso instinto de sobrevivência. Sem ele, poderíamos colocar em risco a própria vida. Mas quando ele se faz presente na infância, vai mais além, podendo até prejudicar o desenvolvimento intelectual da criança. Todas elas sentem medo. Umas mais, outras menos. As que sentem menos conseguem vencê-lo rapidamente por terem maior capacidade de exteriorizar sentimentos e emoções. Davi, meu filho mais novo, de 6 anos, faz parte do outro grupo, aquele das crianças que sentem muito medo e de tudo.

No ano passado, quando estava no segundo período, Davi não queria ir mais para a escola. Todos os dias, logo que acordava, ele perguntava se poderia ficar na casa da vovó enquanto eu trabalhava. Diante da minha negativa, ele recorria ao pai professor, que tinha uma agenda flexível. Quando o pai não ia para a faculdade à tarde, Davi ficava em casa. Do contrário, nosso pequeno chorava copiosamente e só parava quando eu dizia que iria pensar na possibilidade. O horário do banho, no entanto, era o ponto de partida para mais uma série de súplicas dele. Foram dias assim e começamos a nos preocupar. Segundo a professora, nada havia ocorrido na escola. Mas havia sim. Ela só não sabia. Esperei o dia em que ficaria sozinha com Davi em casa para conversarmos. Não queria a interferência do pai, nem do João Lucas, o irmão mais velho. Conheço bem o meu pequeno e, sentindo-se acuado, ele “sairia pela tangente”, buscando abrigo no pai ou no João. A rotina pela manhã foi normal. Em nenhum momento, ele me perguntou se poderia ficar na vovó. Próximo à hora do banho, porém, ele perguntou, já com os olhinhos marejados de lágrimas. Então, entramos para o quarto e iniciamos a nossa conversa.

Abracei o pequeno e disse a ele que poderia confiar em mim: “Filho, o que aconteceu na escola para você não querer ir mais lá? Logo você que sempre gostou de lá!”. Ele chorou, resistiu à minha indagação até externar o conflito. Ele havia quebrado a régua da amiguinha. “Ela agora quer que eu fique sentado ao lado dela até o fim do ano mãe e eu não quero isso. Ela disse que se eu não fizer isso, ela vai contar para a professora, para a diretora e para o pai e a mãe dela.” Pois bem. Com uma explicação simples e racional, vencemos o medo e superamos o conflito juntos. Compramos duas réguas para devolver à coleguinha. Conversei novamente com a professora para que ela não deixasse algo do tipo acontecer novamente. Não só com o Davi, mas com qualquer outra criança da escola. Mas antes mesmo que a professora tomasse uma providência, Davi, já confiante, ao entregar o material para a coleguinha, foi enfático: “Essas réguas são para você. E você não manda em mim. Eu sento onde eu quiser, ou onde a professora e a diretora mandarem.”

Tenho certeza que situações semelhantes fazem parte da rotina de qualquer pai ou mãe. Por isso, devemos encarar o medo como uma emoção pura e ter “jogo de cintura” para administrá-lo. Neste sentido, confiança é fundamental.