Há alguns anos, participei de um workshop sobre gestão de empresa, para o jornal em que eu trabalhava na época, e o palestrante insistia que um dos segredos das mentes vencedoras é comemorar as pequenas vitórias e daí planejar as próximas. Porque a grande, imensa vitória, pode não vir da maneira como esperamos. Normalmente ela é a junção das pequenas. Mas, acabamos não percebendo, porque queremos que algo nos arrebate, nos surpreenda, nos jogue no chão!

Essa frase só fez sentido para mim tempos depois e longe do contexto empresarial. Fez sentido depois do Luca. Diagnosticado com TGD (Transtorno Global do Desenvolvimento) aos 2 anos e meio, dentro do espectro autístico, Luca nos fez passar por todas as fases que uma família passa quando descobre que tem em mãos uma criança especial (em outro post quero falar sobre isso). Agora, estou na fase descrita no workshop: comemorando as pequenas vitórias.

Antigamente, me lembro de perguntar a cada médico, neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psiquiatra, pai, mãe e palestrante que passava na minha frente, quando é que o Luca – que vai fazer 4 anos em junho –, iria falar. Ouvia sempre a mesma resposta: não dá para saber, cada um tem seu tempo, você precisa dar estímulo de todos os lados e esperar….

Em um seminário de três dias que eu e o meu marido fizemos, em Porto Alegre, aprendemos um pouco mais sobre a fala: que ela vem como um desenvolvimento natural do amadurecimento neurológico da criança; que ela chega depois que essa criança aprende a imitar, a fazer brincadeiras de imaginação, a perceber o outro em seu mundo, a perceber que está em um mundo onde é preciso compartilhar, quando ela finalmente entende que falar vai facilitar a vida dela, e não a dos pais! Me dei conta que eu queria que o Luca falasse por que sim! Porque eu queria e pronto! Porque eu queria um filho normal, que falasse no tempo normal, porque eu não queria continuar explicando para todo mundo porque ele tem 3 anos e não fala! Percebi que tinha esquecido de entender porque o Luca não falava… de procurar saber os “ingredientes” que faltavam para ele falar… E então parei de me preocupar com o produto final. Passei a me interessar mais pela estrada que constrói a fala do que com a própria fala.

Hoje o Luca fala muita coisa. Está começando a formar frases. E a gente comemora cada palavrinha nova. Já tem um tempo que eu e o Daniel, meu marido, comemoramos as pequenas coisas. Há uns três meses, ele passou a fazer brincadeiras de imaginação. Hoje ele tenta nos imitar. E a gente comemora, coloca no facebook, posta vídeo no youtube…. porque significa muito para o Luca. E mais ainda para nós.

Como no dia em que ele me pediu água e respondeu “obrigado” em resposta, pela primeira vez. Ou quando ele contou de 1 até 10 sozinho, do nada, quando estávamos na sala fazendo sei lá o que… Já contamos até 10 com ele umas 50 milhões de vezes antes disso, e ele nunca falou de volta. Nesse dia teve pizza em casa para comemorar. Ou no dia em que o 1, 2, 3 virou a música dos indiozinhos. Fiquei embasbacada. Estavamos voltando da terapia. Quase bati o carro!

Essa semana, aconteceu algo marcante. Eu parecia uma louca no cabeleireiro, comemorando o que para toda mãe seria algo normal: meu filho cortou o cabelo sem estresse. Quem tem filho autista sabe o que é tentar cortar ou pentear o cabelo, cortar as unhas… um escândalo! Eles têm problemas sensoriais (a maioria). Por algum motivo, o cérebro interpreta ações como cortar cabelo e unhas, o roçar das etiquetas nas roupas na pele, meias tortas nos pés, determinado tipo de tecido nas mãos, como se fossem sensações dolorosas, ou no mínimo muito incômodas.Sou conhecida nos salões do meu bairro. Já fui a uns sete, sempre me revezando para não ser barrada em nenhum. Quando chego com o Luca para cortar o cabelo, tenho a impressão de que os cabeleireiros somem, de repente a agenda fica lotada… A tortura começa com ele berrando, lágrimas escorrendo, sentado no meu colo, quase amarrado, cabelo entrando pela boca, pessoas olhando horrorizadas para aquela mãe desumana e sem noção e o cabeleireiro, coitado, fazendo o que dá para fazer. Normalmente, ele consegue passar máquina três e já me dou por satisfeita…. Saio de lá sem graça, pago sem olhar para o lado e vamos os dois para casa tomar banho cheios de cabelo e talco pela roupa.

Sexta-feira, fui ao cabeleireiro cortar o cabelo do Thiago, o mais velho, de 5 anos. Já foi um avanço o Luca ter entrado no salão. Normalmente ele fica do lado de fora da porta comigo e eu fico de olho no Thiago pelo vidro. Nesse dia, ele entrou e ficou vendo o irmão cortar, fazendo a bagunça de sempre, mas pelo menos estava lá dentro! Acabou, fui pagar no caixa e quase perdi o fôlego quando o Luca sentou no lugar do irmão e ficou esperando para ter o cabelo cortado. Nunca, jamais, nem nos meus sonhos mais otimistas, imaginei essa cena. Detalhe: o cabelo dele nem estava grande. Mas, deixei de saber: pedi para o cabeleireiro (mais atônito do que eu, porque ele já conhecia o filme de terror que era cortar o cabelo dele), fazer qualquer coisa naquele momento.

Luca deixou cortar, passar máquina nas costeletas, aparar, cortar a franja, molhar e aceitou até colocar a capa, coisa que ele odeia! Tirei foto, filmei, liguei para o Daniel para contar, abracei meu pai no salão, foi uma comoção que só quem passa por isso na vida é capaz de compreender. Eu parecia uma louca no salão! Uma louca feliz. Saí de lá mais convicta de que devemos sim, comemorar as pequenas coisas. Por que são elas que nos fazem ter esperança de que as grandes conquistas estão por vir!

Um beijo especial!