Há umas duas semanas, lendo sobre autismo na internet para me aproximar ainda mais do meu filhote mais novo, o Luca, de quase 4 anos, que está no espectro autista, li um artigo que relacionava a quantidade de horas que uma criança fica em frente a TV ao autismo. Ou a sintomas autísticos, como isolamento, pouco interesse pelo outro e distanciamento da realidade. Não quer dizer que crianças típicas fiquem autistas por verem TV. Mas as que têm propensão genética principalmente para desenvolver a síndrome, encontram na televisão uma ótima porta de entrada para se abstrair de vez do mundo dos considerados normais.

Me lembrei que quando comecei a trabalhar no Rio, passados alguns meses da nossa mudança de BH, em 2009, eu e o meu marido começamos a desconfiar que a babá que ficava com o Luca de tarde enquanto estávamos trabalhando e o Thiago, o meu filho mais velho, hoje com 5 anos, estava na escola, o deixava a tarde inteira na frente da TV sozinho no quarto enquanto ela via TV na sala ou fazia outra coisa. Algumas vezes que cheguei se surpresa vi a cena, pedi para ela ficar com ele, mas o fato é que você nunca sabe o que acontece na sua ausência, a menos que espalhe câmeras pela casa.

O fato é que o Luca ficava muito quieto realmente em frente a TV. Claro que tomávamos conta para que ele visse programas legais, educativos, Bebê Einstein, Discovery Kids, Pocoyo, Galinha Pintadinha e tudo mais… No início, quando ele era novinho, aquilo me deixava até feliz. “Nossa, como ele se concentra rápido nas coisas”, “como ele é interessado em aprender”… Ledo engano. Hoje vejo que era uma forma de ficar no seu mundinho sem ser incomodado por ninguém. Às vezes, estávamos sentados do lado dele e chamávamos o seu nome uma, duas, cinco, dez vezes, em vão. Ele nem olhava. Eu me postava entre ele e a TV e ele nem se incomodava. Olhava através de mim ou arredava um pouco para continuar assistindo…. Houve um período em que achamos que ele tinha algum problema de audição.

Demorou um tempo para eu perceber que não era concentração. Era fuga. No dia do diagnóstico dele, quando a palavra autismo foi falada pela primeira vez pela neurologista, cheguei em casa desnorteada e digitei autismo no google. No primeiro artigo, havia uma lista de 15 características de quem se enquadrava no espectro. Luca testou positivo para 11. Uma delas era “parecer não escutar quando é chamado e olhar através dos pais quando se está em frente a TV, por exemplo”.

Diante do tsunami que invadiu minha vida nas semanas seguintes, a TV parecia o menor dos meus problemas. Há duas semanas, com o Luca bem mais evoluído do que na época do diagnóstico, há um ano e três meses, mas ainda com um caminho longo a percorrer, pensei em tirar a TV do quarto deles. Os dois já tinham autonomia total sobre ela… trocavam o canal, colocavam e tiravam DVD, uma festa. E estavam se acostumando a dormir com a TV ligada, uma concorrência extremamente desleal para minhas historinhas infantis. Em compensação, foi vendo vídeos do Bebê Mais, por exemplo, que o Luca desembestou a falar e nomear corretamente as cores, a cantar musiquinhas e a contar. Na primeira vez, que pusemos o DVD das cores, ele as nomeou de cara… Claro que isso já vinha sendo trabalhado na escola e nas terapias, mas alguma coisa de diferente na TV fez ele verbalizar as cores pela primeira vez. Assistindo ao Super Why, ele falava o alfabeto inteiro. Em inglês! Eu gravava e achava aquilo bonitinho. E me desisti de tirar a TV do quarto deles.

Bom, voltando ao artigo, ele tinha exemplos e casos de famílias que tinham abolido a TV das suas vidas e os filhos (autistas, disléxicos ou com déficit de atenção), melhoraram muito a concentração, a vontade de aprender e, sem a hipnose televisiva, se interessaram em fazer coisas novas em companhia dos pais. É tudo o que eu quero agora.

Me lembro de ter ido dormir naquele dia decidida a tirar a TV do quarto deles e fixar horários certos para eles verem TV na sala, para poderem brincar mais com outras coisas diferentes. No dia seguinte, desliguei e foi um escândalo… sucumbi e volte com a TV à noite, assistindo com eles o DVD do Art Atack que eles (e eu) adoramos. Desliguei a TV e fui dormir.

E não é que no dia seguinte ela não ligou mais?! Simplesmente queimou. Do nada! Me senti meio bruxa! Fiquei com medo de ter estragado a coitada com o poder da minha mente(rs)… Tipo, já que eu não tive pulso firme para tirar ela de lá, o universo se incumbiu de tirá-la na marra!

Resultado: foram dois dias de protesto, choro na hora de dormir, birras, eles ficaram emburrados, fizeram um show, mas agora, 15 dias depois, já não sentem a menor falta da TV. Dormem ouvindo historinhas e fazendo uma prece. Desde então, o Luca se interessou mais por joguinhos educativos no leptop. Sem a televisão para distrair, ficam mais tempo fazendo atividades criativas como trabalhinhos escolares, desenhar, recortar e pintar. Pego o Luca fazendo brincadeiras imaginativas (colocar um bonequinho conversando com outro, por exemplo), que há três meses ele não fazia, com mais frequência. O Thiago tem se interessado mais pelos livros, me pedindo para ler revistinhas do Cascão e da Mônica. O Luca repete trechos das historinhas antes de dormir como soprar com o lobo, ou fazer a voz dos porquinhos, o que ele simplesmente não tinha feito até então.

A TV continua no quarto, devidamente estragada e o Luca todo dia pergunta, rindo, em tom de deboche, só para ouvir a gente dizer: quebooooou. “Mamãe, TV?”. Ela queimou, Luca. E vai continuar assim um bom tempo!