“Gabi quis vir ao mundo mais cedo, com 29 semanas, no dia 16 de outubro de 2010. Nenhuma mãe espera por isso e eu não estava preparada. O parto foi emergencial, pois tive pré-eclampsia, minha pressão subiu como um foguete. Assim que ela nasceu, teve que ir direto para a UTI Neonatal, então, nem pude ver seu rostinho. Só ouvi seu choro, mas já me deu um alívio, pois ela mostrou que estava ali, guerreira, para enfrentar a batalha. Naquele momento descobri o que era ser mãe, algo mágico e uma sensação inexplicável. Sempre ouvia minha mãe dizer: ‘quando você for mãe, irá entender’, e é a pura verdade! Eu entendi de uma maneira mais sofrida, uma vez que não tinha minha filha querida em meus braços. Mas Deus me deu forças para superar todos os obstáculos que iríamos enfrentar.

Gabriela nasceu com 1.100 kg e na mesma semana perdeu peso (890g). Comparo essa etapa ao desenvolvimento do filhote de um passarinho, que nasce frágil e magro. Mas o filhote sobrevive devido à proteção e ao carinho da mãe, até chegar o momento de voar. A rotina da UTI Neonatal é desgastante. Por medida de segurança para os bebês, a Maternidade permite apenas a entrada dos pais, mas podemos fotografar e filmar. Então, a família pode participar do momento indiretamente, a minha esperava uma foto nova diariamente e acompanhava o seu crescimento.

Para que o bebê se desenvolva o ideal é que ele tome o leite materno. As mães são orientadas a retirar o leite para início da dieta. A da Gabi iniciou com 3ml e em sua alta já consumia 90 ml. Então, é muito importante que a mãe de um bebê prematuro inicie a rotina da ordenha logo após o parto. Durante o dia a dia, as mães retiram o leite no próprio hospital, em uma sala especial. A convivência com as outras mães é fundamental para nos ajudar a superar o momento. A amizade acontece no decorrer dos dias, experiências são trocadas e as histórias de superação são motivadoras, sempre tem um bebê recebendo alta e muitas vezes o caso pode ser mais grave que o de seu filho.

Todos os dias ficava com a Gabi na UTI, mostrei a ela que era forte o suficiente para apoiá-la nesta batalha. As pessoas que ficam sabendo de nossa história me perguntam: qual o segredo? Primeiro, é necessário manter a calma. Se você passar por uma vivência similar à minha, lembre-se sempre disso. Quando estiver ao lado do seu filho, tenha certeza que tudo dará certo, seja otimista, alto astral. Não chore perto dele, se der vontade de chorar, o que é normal, saia e depois volte. Converse sempre com ele, demonstre como ele é importante para você e para o mundo. Cante músicas, eu cantava muito as músicas que a Gabi escutava ainda na minha barriga. Quando chegava para visitá-la, só de ouvir “Bom dia, minha filha!”seus batimentos cardíacos apitavam. Fortalecida pela confiança e carinho que eu e meu marido demonstrávamos a ela, Gabriela passou por todas as etapas com sucesso.

Nunca esquecerei seu primeiro dia sem tubos, com roupa, o primeiro colo e cheiro, o primeiro banho, a retirada da sonda para amamentar em meu peito. Assim que eu pude pegá-la a primeira vez e fazer o canguru (acolhemos o bebê em nosso peito, por dentro da roupa, para simular o ambiente do útero), foi um grande passo para sua recuperação. Depois daquele momento, o método foi repetido diariamente. Ficava horas e horas sentindo o seu cheiro, curtindo seus sussurros, foi muito bom para mim e para ela.

A participação do pai também é fundamental. Meu marido precisou retomar a rotina do trabalho, mas todos os dias a visitava e durante o final de semana ficava o tempo inteiro conosco. Ela também sentia sua presença.

Cada grama que ela ganhava era uma alegria! Sempre agradeci a Deus por ela estar viva! É num momento como esse que enxergamos valores antes não percebidos. Confesso que não é fácil, mas eu consegui e outros pais também irão. Depois de 42 dias minha alegria ficou completa, pois a Gabi teve alta e a levamos para casa. E hoje ela está cada dia mais linda, mais tagarela, muito esperta (até demais), e continua me surpreendendo.

A Gabi nasceu na Octaviano Neves que é referência em Neonatal. Recebemos todo o apoio e suporte médico necessários durante o período. “

Érika Silvério, 38 anos, mãe da Gabriela, hoje com 1 ano e 6 meses