Ah, os conflitos da adolescência! Como é difícil conviver com eles! Ser mãe de um adolescente não é nada fácil. Na maior parte do tempo, João Lucas é adorável, galanteador, educado, estudioso, dedicado… Um filho exemplar. Mas quando a crise de transição resolve aparecer é dureza! A doçura transforma-se em acidez. Tenho de rebolar, contar até 100 quatriliões para me manter no juízo perfeito. É a minha função, afinal.

Sabe aquele provérbio “ser mãe é padecer no paraíso”? É bem isso. Eventualmente tem seus dissabores, mas é sensacional. Mas voltando à crise existencial proporcionada pela batalha de estrogênios e testosterona, fomos a uma churrascaria comer o que João Lucas (e eu obviamente) mais gosta: muita picanha. Acreditava peremptoriamente que agradaria, mas de repente, não mais que de repente, ele fez cara de poucos amigos e ficou monossilábico. Tudo isso depois de pegar o telefone que estava dentro da minha bolsa e verificar não sei o quê nele. Ele se levantou, foi até o buffet e encheu o prato de arroz, feijão tropeiro e batata frita. Comeu tudo e nem ligou para a suculenta picanha. Nem adiantava insistir perguntar o que estava acontecendo. A melhor resposta do João na ocasião foi: “Nada. Estou com fome.” Pois bem.

Comeu. Mas continuou com a mesma cara de enterro até chegarmos em casa. No carro, ensaiamos um diálogo sobre um intercâmbio em Nova Iorque. Era o que ele mais desejava. Pelo menos até aquele momento. “Mãe, eu não quero ir à Nova Iorque?”. Que novidade era aquela? Mas dei a conversa por finalizada ali mesmo. Até mesmo para não alimentar os meus cabelos brancos que começam a aparecer.

Quando chegamos em casa, quase nada mudou. O único gesto de carinho que ele fez foi me servir um copo d’água. Entrou para o quarto e foi tocar violão. Depois, ligou o computador e foi conversar com os amigos pelo messenger. E foi facebookear. Sempre calado. Dava um sorriso seco vez ou outra, interagindo com a máquina à sua frente. Foi dormir e no dia seguinte acordou com outro humor, como se nada havia ocorrido na noite passada. Senti saudade do meu bebê naquele momento. E me senti culpada por isso ao mesmo tempo.

Não tenho de sentir falta do bebê. Afinal estou cansada de saber que a adolescência é um processo amplamente complexo, que se desenvolve por um longo caminho, sempre caracterizado por fenômenos progressivos e regressivos que atuam alternadamente e envolvem o corpo, a mente e o mundo externo. Eu também fui adolescente e tive um mãe que soube administrar a minha transição da infância para a fase adulta. Ela precisou também de muita paciência, pois eu não fui fácil.

Sempre que discuto com o João, meu marido diz que estou tentando combater o meu próprio eu. Ele diz que somos muito parecidos. Então não adianta brigar. Nessa batalha, eu nunca sairei vencedora. João Lucas está em pleno processo de aquisição da individualidade, tentando criar o seu próprio universo vivencial. Dizem que essa fase só vai terminar quando ele tiver 18 anos. Depois disso, até os 24, ele passará por processo de amadurecimento. Assim sendo, é bom eu iniciar o meu estoque de tintura de cabelo.

Beijo e até o próximo post (se o Ronaldinho Gaúcho assim deixar)!

Para pensar…

“A adolescência, não é apenas o período em que ocorrem acentuadas modificações somáticas sob a regência da constelação endócrina, mas aquela etapa evolutiva onde se cristaliza o processo de aquisição da individualidade, com todos os comemorativos que assinalam o esforço pessoal para diferenciar da matriz sócio-familiar de origem e criar seu próprio universo vivencial”(Osório,1982,p.13).