O poder das redes sociais vai além do que a própria razão desconhece. Unidas pela internet, mães que defendem o direito de dar à luz em domicílio fizeram uma marcha na Avenida Paulista, em São Paulo, na semana passada. o movimento, que se espalhou pela web, ganhou adeptos de outras cidades, inclusive aqui, em BH. Na capital mineira, um grupo de mães favoráveis ao parto domiciliar, com seus filhos, reuniram-se em frente à Igrejinha da Pampulha para protestar contra o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj). O órgão exigiu, na semana passada, do conselho paulista punição ao obstetra, professor assistente da Universidade Federal de São Paulo, Jorge Kuhn, porque ele defendeu o parto em casa em entrevista ao Fantástico.

Na ocasião, Kuhn afirmara que não fazia parto domiciliar desde 2010, quando o Cremesp emitiu parecer desaconselhando a prática. Mas que a recomendava. Alguns especialistas e leigos consideraram a declaração do médico irresponsável. Sobretudo os conselheiros do Rio, que emitiram uma nota de reprovação à conduta de Kuhn. Imediatamente, os defensores da causa começaram a se mobilizar pela internet e organizaram o protesto.

O tema é bastante polêmico e, por essência, provoca discussões muito divergentes. Segundo a jornalista Cleise Soares, é importante que fique claro que o grupo defende o direito de decisão da mulher com relação ao parto. Cleise é assessora de imprensa do Hospital Sofia Feldman, única instituição (da rede pública) na capital mineira mantenedora de uma casa de parto. Ela também preside a ONG Bem Nascer, que trabalha com a divulgação de informações sobre a importância do parto humanizado. “Não somos contra a cesária, mas estudos já comprovaram que apenas 15% delas foram realmente necessárias. E a mulher não tem o embasamento científico para concluir se tem condições, ou não de fazer uma cesária, que é uma intervenção cirúrgica. Quem tem de fazer isso por ela é o médico. Hoje a gente vê o procedimento sendo adotado desnecessariamente”, acrescentou.

Para aprofundarmos no tema, precisamos entender a diferença entre parto normal ou vaginal e natural ou humanizado. Em ambos, o bebê sai pelo mesmo lugar, mas os procedimentos são bem diferentes. O primeiro é feito em hospital, com todas as intervenções (lavagem intestinal, raspagem dos pelos pubianos, corte vaginal, aplicação de soro com ocitocina e anestesia…). O segundo ocorre sem nenhuma intervenção, em domicílio ou numa casa de parto, com acompanhamento de um obstetra ou enfermeiras obstetras e uma doula*, além de um acompanhante de escolha da mulher. Normalmente, o marido.

Daphne Paiva Bergo Gonçalves é uma doula e mãe de Artur, 6, e Laura, 4. Ela teve o primeiro filho de parto normal e o segundo, de parto humanizado. Tem autoridade para falar sobre o assunto. “Foram dois procedimentos distintos e, pra mim, o segundo foi o melhor, mais significativo.”

Para Daphne, o parto natural ou humanizado é a melhor opção. Mas ela lembra que nem todas as mulheres tem pré-disposição para tal. A escolha, nesse caso, tem de ser feita com responsabilidade. A mãe só estará apta para o procedimento se o pré-natal tiver transcorrido normalmente por exemplo. Em casa, de acordo com Daphne, tudo é feito dentro de um padrão de segurança. Os especialistas estarão munidos de balão de oxigênio, desfibrilador para a necessidade de reanimação… Além disso, o hospital (no caso, o Sofia Feldman), estará de sobreaviso.

Em Belo Horizonte, o grupo de médicos favoráveis ao parto humanizado é pequeno, em torno de 10 especialistas. E o número de hospitais da rede privada com mais abertura para acompanhar o modelo também. Apenas três (Materdei, Santa Fé e Hospital da Unimed) segundo Daphne. “Além disso, normalmente a mulher só tem confiança no médico que fez o seu pré-natal. Por isso existe a campanha.”

De qualquer forma, todas as formas de dar à luz têm algum motivo para ocorrer. Neste sentido, não só a natureza deve ser respeitada, mas também a escolha da mãe do que ela achar que é melhor para si e para o bebê.

* Mulher geralmente com experiência de maternidade, que permanece ao lado da mãe antes, durante e depois do parto. Estabelece uma relação de empatia e confiança. Uma espécie de melhor amiga de infância, digamos. E que não faz nenhum procedimento médico, elas fazem massagens na gestante, indicam a melhor posição durante o trabalho de parto, ajudam na amamentação do bebê, dão dicas sobre os primeiros cuidados…