Os filhos crescem e com eles todas as nossas angústias. Contrariando a normalidade (ou o que deveria ser, digamos), os nossos medos se potencializam. Na última segunda-feira, o passado me bateu à porta. E
foi assustador. Cheguei em casa à noite, depois do trabalho, e encontrei o João Lucas, meu filho mais velho, de 13 anos, enrolado no edredom. O rosto dele estava mais vermelho que um tomate. Ele queimava
em febre. Estava com 40 graus. Reclamava de muita dor de cabeça, na face e no peito. Entrei em pânico, pensando na possibilidade de reviver um passado angustiante.
Ao contrário do Davi, meu filho mais novo de seis anos, João Lucas sempre foi uma criança muito alérgica. Teve não sei quantas crises de bronquite quando era bebê, vivia tomando antibiótico e era praticamente sócio da Santa Casinha para garantir as sessões de micronebulização. Para encerrarmos com as cansativas visitas ao pronto-atendimento, resolvemos, na época, adquirir um “kit broncodilatador”, tornando o tratamento mais fácil e menos traumático para ele. Em casa era mais confortável e menos constrangedor.
Mesmo assim, resolvi procurar um tratamento alternativo à alopatia. Não suportava mais vê-lo ingerir tanto remédio. E como a maioria das mães (eu acredito que seja assim), recorri à homeopatia. Procurei uma
especialista com as melhores referências e iniciamos o tratamento com fórmulas manipuladas que se transformavam nas famosas bolinhas. Seria um tratamento preventivo. Mas não preveniu.
João Lucas, então com dois aninhos, começou a ter febre alta. Fizemos nova visita à médica-homeopata. Ela suspendeu as bolinhas e receitou um antibiótico, mas não solicitou nenhum exame mais complexo. Nem
sequer um raio-x do tórax do meu bebê. Questionei quanto a isso, mas a especialista disse que não era necessário. Logo iniciei o tratamento.
No dia seguinte, a febre havia cessado, o que me tranquilizou. Três dias depois, no entanto, João Lucas voltou a ter febre alta. E o pior: tinha muita dificuldade para respirar. Corri para o atendimento de
urgência. Era noite e o plantonista, tão logo percebeu a situação do meu bebê, solicitou o bendito raio-x. O diagnóstico fez o chão sumir dos meus pés. Ele estava com pneumonia, havia derrame pleural nos
pulmões e o baço e o fígado estavam inchados. Não havia outra alternativa senão interná-lo.
Foram os 15 piores dias da minha vida. Nunca senti na vida uma dor tão forte como aquela. João Lucas precisou tomar dois antibióticos juntos (intravenoso e oral) e teve de fazer fisioterapia respiratória para

secar o líquido nos pulmões. A quantidade era pequena e não houve necessidade de fazer punção. Isso já era uma boa notícia porque a retirada do líquido poderia formar uma cicatriz, um queloide
propriamente dito, no pulmão, comprometendo as células do órgão, segundo os médicos.

Eu sabia que ele estava bem assistido, mas a angústia não me abandonava. Era o meu bebê que estava ali, tão frágil, e eu sem poder fazer nada além de abraçá-lo. Tentava passar o máximo de tranquilidade
e o esperava dormir para chorar. Entrava para o banheiro e chorava, chorava e chorava. E depois rezava, rezava e rezava. Os primeiros sete dias foram assim até João Lucas dar indícios de melhora. Ele já se
alimentava bem, estava mais animado, brincava na cama, pedia para  passear pelo hospital… Enfim, recebemos alta.

Ele ainda precisou tomar sete injeções em casa. Ficou com o bumbum roxo. Fizemos compressa de água quente para desinchar o local. Tomou pânico do açougueiro e do pipoqueiro. Não podia ver ninguém de jaleco branco que “abria o berreiro”. Mas depois disso nunca mais teve nada. Nadica de nada mesmo. Até a última segunda-feira, quando o encontrei “amuado e pelando”, como diria minha avó, no sofá de casa. A febre demorou para baixar e eu não dormi naquela madrugada. Acordamos cedo e fomos para o hospital. Eu suspeitava da maldita pneumonia. O pediatra também. E pediu logo novo raio-x. Mas desta vez não passou de uma amigdalite das bravas, graças a Deus!

Em tempo! Foi engraçado ver o João Lucas, daquele tamanho, ser atendido por um pediatra. Ele era bem maior que o médico. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que se vá ao pediatra até o fim da adolescência. Ele seria o especialista mais apto a lidar com os conflitos e transformações dessa fase do desenvolvimento.