“Dá um tempo, mãe!!!!” Pensei que só ouviria essa frase quando o Thiago, de 5 anos, e Luca, de quase 4, entrassem na adolescência. Ouvi sábado. Do Luca. Não, ele ainda não fala frase inteiras. Diagnosticado com TGD (Transtorno Global de Desenvolvimento), o Luquinha tem atraso na comunicação verbal e na socialização. Mas foi isso o que ele me disse, mesmo sem verbalizar uma palavra sequer. E eu custei a entender… Custei, porque, mais uma vez, meu caçulinha me deu mostras de que ele não é o único que às vezes se fecha no seu mundo e se recusa a visitar o do outro.

Sábado foi a festa junina dos meus dois bichinhos. Cada uma em uma escola diferente, distantes menos de 400 metros uma da outra. O dia começou com estresse. O Thiago colocou a roupa normalmente. Festeiro, curtia cada detalhe da preparação. O Luca fez um escândalo como há muito tempo eu não via ele fazer.

Eu, na ânsia e no egoísmo de vê-lo lindo na sua roupa caipira para tirar foto e postar para família ver, botei a camisa no menino à força, com ele gritando, implorando aos berros para eu tirar. Luca chorava compulsivamente, de soluçar, e tentava arrancar a camisa de todo o jeito. Olhava para o pai e pedia: “Tira, papai”. Ficamos firmes até percebermos que ele realmente não iria sair de casa com a camisa xadrez. Estava vermelho e me olhava com raiva… me senti mal. Tirei a blusa, ele todo suado, e fomos para a primeira festa, a da escola do Thiago. 

No caminho, meu sentimento era de frustração e tristeza. Ano passado ele fez a mesma coisa. A gente cedeu e acabou não indo à festinha dele. Eu tinha a esperança de que, o fato de ele aceitar se vestir de caipira este ano, significaria uma evolução. Como se isso fosse fazer dele menos ou mais autista….
Quando entramos na escola do Thiago e ele percebeu que era festa junina, ele quis voltar e ficava só falando: “taxi, taxi”. Queria pegar um taxi e voltar para casa. Aos poucos, aceitou brincar nas barraquinhas, ficou calmo, mas não desgrudou do Daniel um segundo sequer. Vai que aquela louca tenta atacar ele de novo com a camisa, né?

Com os olhos marejados, fui para a apresentação do Thiago. Foi lindo. A turminha deu um show. E eu chorava sem parar. De emoção, claro, pela música, pela coreografia e pela alegria deles dançando tão direitinho, mas principalmente porque eu sabia que o Luca estava em algum canto daquela escola com o meu marido, isolado, pedindo para ir embora. 

Fomos para a segunda festa, com o Luca aliviado, pensando que iríamos para casa. Mas estávamos indo, à pé, para a escolinha dele, na rua de baixo. Quando ele percebeu que era o caminho do colégio, começou a empurrar meu marido e a puxar pela mão para não entrarmos na rua. Ele adora a escola. Mas sabia que era dia de festa junina. E puxou a mão do Daniel para passar direto, pedindo “taxi, taxi”. Eu, meu pai e o Thiago entramos na escola e dali a pouco, sem opção, o Luca entrou com o Daniel. Ficou mais de uma hora no colo do pai. Assustado, longe de tudo. De vez em quando, o ser humano que ele aprendeu a chamar de mãe aparecia do nada feito uma louca-doida-varrida munida novamente com aquele pedaço de pano xadrez, querendo engaiolar o bichinho.

Desencanei e guardei a máquina, já prevendo que ele não iria dançar. Mais uma vez, as lágrimas ensaiaram sair. A professora chamou para começar a apresentação e ele não foi. A mãe chata insistiu e ouviu vários “nãos”. Sentia um nó na garganta. Não consegui comer nada na festa.

Mas, de repente, para minha surpresa, a música começou a tocar e o que parecia impossível aconteceu: o Luca saiu correndo em direção ao pátio, encontrou um lugarzinho ao lado da professora e participou de tudo! Fez do seu jeito, no seu tempo. Coisa que eu não fui capaz de entender. Tirei a máquina correndo da bolsa e gravei ele lindo, dançando a coreografia direitinho e cantando. E o mais importante, feliz! Mesmo diferente de todo mundo, mesmo sendo o único sem roupa de caipira…. Ele olhava para a câmara e sorria… Posso jurar que ele olhava e dizia: “Dá um tempo, mãe! Eu quero sim, vir para esse mundo que vocês falam que é legal. Mas venho no meu tempo, no meu jeito.”

Desculpa, meu filho, por ser às vezes tão afobada, tão atrapalhada, tão sem medida no amor que sinto por você. Desculpa por ter sido egoísta e só ter pensado em mim, na minha satisfação como mãe… Por querer tanto te ver bem. Mas você estava bem, feliz e satisfeito com a sua camisetinha do homem-aranha no meio daquele monte de caipiras!!!. Eu é que não estava! É duro admitir, mas percebi que uma parte de mim ainda quer aquele filho idealizado…. o filho que na minha cabeça adora se vestir de caipira, fazer pose para as fotos e se enquadrar naquilo que a sociedade diz ser normal. Mães especiais são fortes sim. Mas às vezes têm recaídas!


À noite, peguei aquela camisa xadrez para por para lavar e vi como a chita é dura, grossa, incômoda, dá gastura. Dura e grossa como eu fui durante todo o dia. Fui como uma camisa de xita para o meu Luca. Foi um sábado exaustivo física e emocionalmente. Chorei por vários motivos. Mas o choro de vê-lo dançando e cantando espontâneo e feliz, foi o mais intenso, porque juntou alegria, orgulho e vergonha. Orgulho por ver que ele se esforça para vencer uma limitação que está lá dentro. No final das contas, eu posso ajudar, mas em última instância a luta é dele! Vergonha de mim mesma, por saber que eu exijo que uma criança de 3 anos com TGD saia do conforto do mundo dela e atravesse uma ponte imensa para vir para o meu mundo, sendo que às vezes eu sou incapaz de atravessar a rua para entender o mundo dela. Ser mãe especial é viver numa montanha-russa emocional, sim. Mas é também aprender lições novas da vida todos os dias. Obrigada, Luquinha!

Um beijo especial, sempre aqui,
Na Pracinha!