Há alguns meses, enquanto contava uma história e fazia meus dois filhotes dormirem, Thiago, o mais velho, de 5 anos – que na época tinha 4 –, perguntou, do nada, com a simplicidade típica das crianças: “Mãe, por que o Luca não fala?”

Luca é o meu outro filho, de 3 anos, diagnosticado com Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), dentro do espectro do autismo. Na época, ele falava muito pouco. Tinha um vocabulário de 10, 12 palavras, vivia isolado, brincava muito pouco com o irmão e não entendia a maioria das brincadeiras.

Fiquei paralisada com a pergunta. Não estava preparada para responder nada do tipo naquele momento. Não passava pela minha cabeça que o Thiago já percebesse que o irmão era diferente…. o Luca tinha menos de três anos na época… Ainda me acostumando com o diagnóstico, nem eu mesmo sabia porque o Luca não falava… O autismo ainda era um inimigo indecifrável, um monstro horrível e imenso, uma coisa do outro mundo….. Eu mal conseguia falar a palavra autismo em voz alta. Um medo bobo de mãe especial de pouco tempo. Como se pronunciar a palavra fosse fazer o “mal” se espalhar ainda mais….



Olhei para o Thiago, ele ávido por uma resposta e fui sincera, como nós, pais, devemos ser com os nossos filhos. Disse que não sabia porque o Luca ainda não falava. Mas que ele estava estudando muito nas terapias e se esforçando bastante…. E que, como uma família unida, amorosa e compreensiva, deveríamos nos empenhar em ensiná-lo a falar e a aprender as coisas que ele ainda não sabia fazer.

Não precisei falar mais nada. Nunca mais. A partir daquele dia, eu e o Daniel ganhamos o melhor terapeuta que o Luca poderia ter e tem até hoje. Estímulo 100% do tempo. Várias vezes, quando chego furtivamente no quarto, vejo o Thiago com uma tábua cheia de letrinhas mostrando e falando o alfabeto para o Luca em voz alta. E o Luca repete. O primeiro nome que o Luca aprendeu a falar foi “TT”, como nós, carinhosamente chamamos o Thiago. Bem antes de falar “papai”, “mamãe” ou “vovô”, ele já chamava o irmão…. Quando o Luca fala uma palavrinha nova ou repete, o Thiago corre para nos contar a novidade, vibrando… Ele aceita as brincadeiras às vezes brutas do irmão, mesmo levando um safanão de vez em quando. E é incapaz de revidar. Nosso papel é parar o Luca  – que apesar de mais novo, é bem mais forte – para não machucar o Thiago… Invariavelmente, o Thiago é paciente, solícito e inclui o Luca em tudo o que faz.

Uma vez li uma dessas frases do Facebook que dizia que “A criança se desenvolve na direção em que é elogiada”. Não era a toa que o Thiago conseguia os maiores avanços e recebia a maioria dos beijos espontâneos e os abraços calorosos quando os dois se viam depois da escola, por exemplo. O Thiago foi quem primeiro aceitou o Luca do jeito que ele é. Eu e meu marido tivemos de soltar as amarras do filho idealizado antes de chegar no estágio em que o Thiago já estava há muito tempo. Para ele, o Luca era o irmão mais novo e pronto!

Explicar para o filho típico porque o irmão é especial não é fácil, embora eu ainda não tenha  precisado gastar neurônio ou suar a camisa para fazer o Thiago aceitar o Luca. É difícil, porque depende de muitas coisas: do grau do comprometimento cognitivo da criança, da diferença de idade entre os dois, da maneira como a família encara a situação (aceitando ou não) e de como as diferenças de maneira geral são tratadas em casa. Acho que explicar com sinceridade é sempre o melhor caminho. Pedir ajuda ao filho (sem nunca, no entanto, dar responsabilidade) é uma estratégia interessante. Valem aquelas dicas que os especialistas nos dão quando temos o segundo filho para ajudar o irmão mais velho a aceitar o mais novo (neurotípico ou não), como ajudar a mãe na troca das fraldas, ajudar no banho…. fazer o mais velho se sentir útil, parte do processo, um aliado, e não um “adversário”…



Para amenizar as diferenças, procuro fazer brincadeiras que atendam os dois. Ou, quando não for possível, separá-los nas atividades, tentando dar atenção da mesma maneira. Ontem, Thiago estava cortando coraçõeszinhos para fazer um cartão do Dia dos Namorados para a namorada (eu também fiquei chocada!). O Luca estava do lado, com a sua tesoura, fazendo o seu cartão, do seu jeito. De vez em quando, tumultuava o cartão do irmão, Thiago se irritava, xingava, mas nada que não desse para contornar. Afinal, essa situação poderia acontecer entre dois irmãos típicos. No final, o Thiago já estava ajudando o Luca a fazer o cartão dele, num resumo da importância do relacionamento entre os dois…. O Thiago foi essencial para o desfralde do Luca. A gente falava mil vezes, mostrava foto, ensinava…. mas ele só entendeu o xixi no vasinho entrando no banheiro para ver o irmão fazer xixi. Quem tem filho no TGD sabe como é difícil o desfralde nos primeiros anos… Ontem à noite, fomos a uma festinha de uma amiguinha do Thiago. Em todas as brincadeiras, ele levava o Luca junto. Se o irmão não ia, ele puxava, ele chamava. De vez em quando eu tenho de intervir para deixar o Thiago brincar sem o irmão à tira-colo… Ele avisa aos amigos com orgulho: “esse é o meu irmão, hein, cuidado com ele!”. Protege e chega junto se alguém se “mete” com o Luca. Já peguei ele se explicando para um amiguinho que o irmão ainda não entendia a brincadeira… Ainda… adoro quando ele fala “ainda”. Vem do Thiago a maior certeza de que o Luca vai falar frases inteiras e vai ser tudo o que quiser e puder. Eu preciso incorporar esse “ainda” nas coisas que dizem respeito ao Luca. O ainda é a certeza do que está por vir.

O Thiago sempre entendeu muito o irmão. Eles são amigos e me emociono com a cumplicidade deles. Ele não ama o Luca por causa dos brinquedos (que são os mesmos) ou por que ele é fofinho e gostoso, como costuma dizer. Ama por que ama. Ama apesar das brincadeiras brutas do irmão, nas quais ele sempre leva a pior. Não sei como vai ser essa relação daqui a uns anos. Mesmo porque, se Deus quiser e com tudo o que pudermos oferecer, o Luca vai estar cada vez mais próximo do desenvolvimento normal, e as diferenças serão cada vez menores. Não posso antecipar o futuro. Posso, sim, me orgulhar de ter um filho que aprendeu e vem aprendendo com as dificuldades e diferenças do irmão. É uma chance para poucos. Só mesmo para irmãos especiais!