Quando eu e Walner nos casamos, João Lucas tinha cinco anos. Era o reizinho da casa. Todas as suas vontades eram feitas e seus desejos prontamente atendidos pelo padrasto. Mas curiosamente, ele sempre demonstrou que aquela não era a vida que gostaria de ter. Sentia-se muito sozinho e queria um irmãozinho. Dois anos depois, quase três, o desejo dele foi atendido.

Davi nasceu em abril. João Lucas fez oito anos em julho. No dia em que entrei em trabalho de parto, João foi para o sítio da tia Letícia com o primo Luís Fellipe e a vó Therezinha. Não sentiu a menor falta da mãe, embora muito ansioso para conhecer o irmão, que só nasceu à noite. No dia seguinte, logo cedo, foi nos visitar no hospital feliz como nunca. Carregou o irmãozinho no colo com orgulho. Era, para ele, naquele momento, o presente mais desejado da vida que havia acabado de ganhar. A realização de um sonho mesmo. O irmão que ele tanto pediu estava ali, nos seus braços.

Vendo aquela cena e levando em consideração a diferença de idade entre eles, eu tinha a convicção de que João Lucas não teria ciúme do irmão. Para mim, eles seriam melhores amigos. Os primeiros 30 dias desde o nascimento de Davi me faziam crer ainda mais nisso. João Lucas sempre se mantinha sereno e gentil, mas muito calado, sempre no quarto lendo livros e gibis, estudando ou jogando vídeo-game. Era o primeiro sintoma do ciúme, que passou despercebido por mim até o dia em que João Lucas se manifestou claramente. Sim, ele precisou se manifestar.

Certo dia, João Lucas disse que estava com fome. Perguntou se tinha coxinha. Ele estava com vontade de comer coxinha! Outro salgado não servia. Pois bem. Tínhamos coxinha em casa. Naquele momento, Davi dormia. Fui, então, até a cozinha e pus a bandeja de salgadinho sobre a pia. Quando me preparava para colocá-la no microondas, Davi berrou de fome. Corri até o berço, peguei o meu bebê no colo e fui preparar a mamadeira. Dei o leite a ele, coloquei-o para arrotar e, depois, para dormir.

Da minha ida à cozinha até Davi adormecer passaram-se aproximadamente 20 minutos. Incluindo aí uma troca de fraldas. Mal ajeitei o Davi de volta ao berço e João Lucas, do quarto, desabafou rispidamente: “Mãe, você esqueceu que eu estou com fome? Toda vez é assim. Sempre que eu te peço comida, tenho de esperar. Mas quando o Davi berra, você corre e prepara a mamadeira dele na hora”, esbravejou o pequeno, batendo a porta.

Tomei o maior susto. Nunca, em tempo algum, eu imaginei que cometeria um erro dessa proporção com meu pequeno. Fui uma mãe relapsa e, sobretudo, egoísta de pensar que João Lucas, com sete anos ainda, seria maduro o suficiente para entender, sozinho, que naquele momento, o irmãozinho, que não sabia expressar claramente suas necessidades, exigia um pouco mais de atenção do que ele. E para piorar, nas horas de calmaria, eu só desejava descansar.

O desabafo do João trouxe-me de volta ao mundo real. Eu tinha dois filhos, duas crianças. Não um neném e um mini-adulto como eu e a maioria das pessoas de nosso convívio achavam que o João era. Entrei para o quarto, sentei na caminha dele e o coloquei no colo. Aí sim, fui conversar com ele sobre as necessidades de um bebê, que o Davi não sabia falar, nem andar, não sabia preparar a mamadeira sozinho… E que naquele momento eu precisaria dele (João) mais que nunca, que ele sempre fora meu companheiro e teria de ser também do irmãozinho. Ele pareceu entender. Então, fomos juntos preparar o lanche dele na cozinha. Ele comeu, escovou os dentinhos e me chamou para deitar ao lado dele. Assim o fiz. Contei uma historinha e esperei até ele dormir.

Daquele dia em diante, o tempo extra entre uma mamada e outra de Davi era integralmente dedicado ao João Lucas. Na verdade, não íamos ao cinema com a mesma frequência, mas até a ida ao posto de gasolina para encher o tanque do carro virava uma aventura. Do posto passávamos no drive thru de uma rede famosa de lanchonetes e comprávamos o sanduíche preferido dele. E, desta forma, a vida foi retornando à normalidade. O irmãozinho já não era mais um intruso que lhe havia roubado o trono. E eu aprendi que, independentemente, da diferença de idade, o ciúme vai existir, mesmo não sendo o filho mais velho tão dependente dos pais.