Do verbo incluir, do latim includere, no sentido etimológico, significa conter em, compreender, fazer parte de, ou participar de. Esse é o significado de inclusão segundo um dos principais dicionários do país. Logo, inclusão social é fazer parte de uma sociedade livre de preconceitos. E esse é o maior desafio. Vencer o preconceito. Não sou mãe especial como a minha amiga e companheira de longa data, Patrícia Trindade. Mas vivo no universo da inclusão há 38 anos. Tenho oito tios paternos e cinco deles são cegos. Talvez por isso, o preconceito, seja de qualquer tipo, me causa tanta repulsa. Ser diferente do convencionalismo social para a maioria é quase um crime.

Como não tenho irmãs, vivia na casa da tia Creuniz, uma das minhas tias cegas e mãe das minhas quatro primas que considero minhas parceiras. Cresci saboreando as delícias preparadas por ela – ela faz o melhor pão-de-queijo do universo e um frango com quiabo que só minha avó fazia melhor. Quando não estava na casa dela, estava com tia Bebeth, outra cega, passeando por todos os cantos do Brasil. Passei toda a minha adolescência ouvindo as piadinhas do tio Magela. Ele já era bobo antes mesmo de ser famoso. Tudo que ele conta nos shows é verdade. Acontece mesmo. Ainda bem que ele encara o preconceito dos outros com bom humor!

Certa vez, tia Bebeth foi ao Diário da Tarde, jornal onde trabalhei durante oito anos, para me buscar (sim, ela quem foi me buscar). No dia seguinte, um amigo fez o comentário infeliz: “Nossa, Ludy! Ela é cega, mas é bonita, né!”. Respirei fundo e preferi ignorar. Ora, não bastasse a cegueira, ela tinha de ser feia? Como se o pré-requisito para a cegueira fosse a feiúra!


Todos esses valores foram repassados para os meus filhos. Hoje, João Lucas assumiu o posto de companheiro da tia Bebeth, antes ocupado por mim. Ela é madrinha do Davi, o meu filho mais novo. João, inclusive, participou juntamente dela, do longa metragem “Sentidos à Flor da Pele“, de Evaldo Mocarzel, que retrata a rotina comum, diga-se de passagem, de um cego. João sempre passou, desde bebê, os fins de semana com ela. Davi vive brincando com a situação, fazendo piadinhas sobre a tia cega, que a levam ao delírio. Na nossa vida, “ser diferente é ser normal”, como Patrícia Trindade, primorosamente, abordou em seu post nessa quarta-feira. E isso, socialmente falando, deveria ser regra. Ainda sonho com um mundo livre de preconceito.