Essa é a capa de um dos livros que mais me ajudou a entender o Luca e a me manter de pé após o diagnóstico. Eu tinha chegado há pouco tempo no Rio e procurava um centro espírita para dar continuidade aos estudos iniciados em Belo Horizonte duas décadas antes. Criada na igreja católica, foi o meu irmão que me fez conhecer o kardecismo, quando morreu aos 17 anos. Ele era especial. Não andava, não falava, tinha convulsões, era dependente para tudo na sua vida e desencarnou ainda jovem, para enfim descansar, depois de cumprir uma missão árdua, de muitas limitações e sofrimento, entre nós. O catolicismo tinha me ensinado que a morte é um castigo, é algo ruim. Me revoltei com isso e fui atrás de respostas. Ora bolas, porque Deus colocaria no mundo uma criatura que só fez sofrer, e depois tiraria a vida dela, logo ela, que nunca fez mal a ninguém? Me revoltei com Deus, fui atrás de respostas e as encontrei em Kardek. 

Mas não estou aqui para pregar nada, tampouco discutir religião. Tudo isso é para contar uma passagem curiosa na nossa vida e na vida do Luca. Procurávamos um centro espírita sério no Rio, antes de tudo, para dar início à evangelização dele e do Thiago. Tive a indicação do Seara Fraterna, na mesma rua em que moramos, e lá fomos nós para o primeiro sábado de aprendizado. 
O Luca ainda não tinha o diagnóstico de Transtorno Global de Desenvolvimento (TGD). Ele era um bebê às vezes calmo, outras vezes arredio, a fala estava atrasada, mas ele ainda não tinha feito 2 anos, e naquele momento, para a maioria das pessoas, todas essas características podiam ser qualquer outra coisa, menos sinais de que algo estava errado. Até então, ele era apenas um “bebê preguiçoso”. Eu e Daniel éramos “pais que mimam demais o filho e que dão as coisas antes de ele pedir”. E eu era a “mãe neurótica” por ficar incomodada com a demora na comunicação verbal. 


Almoçamos e nos preparamos para ir ao Seara. Luca estava estranho, muito agitado. Coloquei ele e o Thiago no carrinho de gêmeos que tínhamos na época (a diferença de idade entre eles é de apenas um ano e meio), fechei a casa e apertei o botão do elevador. Luca queria bater no Thiago, estava muito nervoso, mordia o dedo sem parar. O elevador chegou e eu senti aquele cheiro nada agradável. Luca tinha feito um cocô gigantesco, que sujou a roupa, o carrinho, tudo. Voltamos, dei banho nele, limpei o carrinho, coloquei os dois de novo sentadinhos, e descemos no elevador. Pisamos na rua e caiu uma tempestade! Não tinha levado guarda-chuva nem a capa do carrinho, porque o tempo estava ótimo, tinha até sol!


Bom, voltamos para casa, guardei o carrinho e peguei a chave do carro para percorrer os três quarteirões que separam o Seara da minha casa. Estava determinada que naquele dia finalmente iríamos começar a evangelização. Entramos no carro, Luca ainda agressivo, querendo brigar com o Thiago sem parar. Ele não era disso, de agredir do nada… Eu tinha de intervir toda hora, dava bronca, separava, mas não adiantava. Numa dessas vezes em que virei para trás para apartar a briga, bati o carro. Estava a meio quarteirão do Centro.


Não foi uma batida forte, foi mais aquele “totozinho” na traseira, mas o motorista do taxi desceu gritando, extremamente grosseiro. Thiago e Luca se assustaram com a agressividade do rapaz e começaram a chorar. Batemos o carro em frente a um bar, desses que a gente chama de “copo sujo”, que eu sempre virava o nariz quando passava em frente achando que tinha um pessoal “muito estranho”. Preconceito pelo bar ser na rua que dá acesso à entrada da comunidade perto de casa. Pois foram essas pessoas estranhas que me defenderam. O dono do bar foi até à rua, perguntou se os meninos estavam bem. Viu que não tinha acontecido nada com os dois carros e mandou o taxista “pegar a pista e se mandar.”

Agradeci profundamente. Foi um tapa na minha cara. Eu, que via com maus olhos aquelas pessoas… É um medo cego e preconceituoso que infelizmente a gente banca por morar numa cidade violenta….. 

Enfim, voltei ao carro e nesse momento, pela primeira vez, pensei em voltar para casa e adiar tudo. Mas aí tinha uma vaga em frente ao Seara, bem na porta, o que é raríssimo de acontecer. Estacionei e desci com os dois pequenos. O Luca segurava na porta com as mãos e os pés gritando com toda força. Ele nem sabia onde iríamos, mas lutava para não entrar. Nunca tinha visto ele fazer nada parecido. Com quase uma hora e meia de atraso, consegui chegar! Com o Luca aos berros, como ficou durante um bom tempo nos sábados seguintes àquele. Ás vezes ele me batia, coisa que não fazia jamais em casa, me olhava com raiva, difícil até de explicar…. O Thiago, ao contrário, parecia estar em casa. 


Pouco tempo depois, assim que tivemos o diagnóstico do Luca, um dos primeiros livros que li foi esse, do Hermínio Miranda “Autismo, uma leitura espiritual”. Foi um divisor de águas na minha vida como mãe especial. Recomendo, mesmo para quem não for espírita. Ele descreve a criança especial de uma forma espiritualista, na verdade, em alguns capítulos quase científica, citando e comprovando como se dão os processos químicos do cérebro, como funcionam os neurônios, o porque de o problema ser na fala e na socialização e faz a ponte para a nossa vida espiritual. Durante a montanha-russa em que nós entramos depois que a palavra autismo foi dita em voz alta pela primeira vez em referência ao Luca, eu e Daniel nos perdemos no desespero e nos esquecemos que tínhamos nas mãos, antes de tudo, um espírito, com um passado, uma história em comum, e com uma missão na terra. E que, talvez, o autismo seja o “remédio” que ele precisa nesse momento para evoluir. E que tudo isso tem um lado bom, porque tem feito a nossa família inteira evoluir. 

Evolução

É por isso, que eu não falo em “cura” para o Luca, falo em evolução. “Ele nasceu autista porque fez mau uso da sua sociabilidade e das amizades na outra vida, mãezinha. Ele está melhor assim, agora!”, disse Chico Xavier para uma avó de autista, que eu conheci há pouco mais de um ano, e que se tornou um anjo da guarda para o Luca e para a nossa família aqui na terra. Ela é uma das “Mães de Chico Xavier”, que passaram a noite na porta da casa do médium em Uberaba ou em Vespasiano em busca de uma palavra de consolo. Não bastasse o drama de ter um neto autista, Maria Regina teve ainda um filho assassinado enquanto fazia um trabalho voluntário em um dos morros do Rio de Janeiro. Ela é a dona e diretora da escola onde o Luca estuda agora. Um dia, o Thiago nos contou que teve um sonho no qual ele buscava o Luca “no céu” para nascer como irmão dele. Eu sei que não foi só um sonho. E sei que não é a toa que eles são tão companheiros e que o Thiago é tão protetor.

Por isso e por outras dezenas de outras coisas que acontecem na minha vida e na vida de pessoas que eu convivo, eu não acredito em coincidências. Porque não devia ser coincidência o fato de o Luca ficar agressivo, me bater e me dar tapas no rosto quando estávamos entrando no Seara, sendo que ele jamais fez algo sequer parecido com isso fora dali; com certeza não é coincidência o Luca entrar no Seara todo sábado e disparar a me pedir água (que é fluidificada) sem parar. Ele toma pelo menos uns cinco copos. Uma sede desenfreada, que não é só física….. E, definitivamente, não foi coincidência o dia em que ele pegou um livro aleatoreamente na estante da sala, abriu numa página e me entregou, do nada. O livro era esse, do Hermínio Miranda. E a página falava de como era feito o planejamento familiar para uma criança (espírito) voltar à terra com limitações sejam elas físicas ou mentais. O capítulo termina dizendo que o amor supera qualquer problema. Foi como se o Luca quisesse me lembrar que tudo é passageiro. Inclusive, e por que não, o autismo na vida dele. Seja lá o que tivemos de passar, vamos passar juntos, porque esse é um teste para a nossa família e para as pessoas que de alguma forma participam da vida do Luca. O meu irmão me fez descobrir um mundo onde as coisas fazem sentido. E agora é o meu filho que me faz continuar estudando, tentando criar uma família melhor!

Um beijo especial!
Sempre aqui, na Pracinha!