Fiquei surpresa, passada, assombrada, abobada, extremamente comovida com os comentários de apoio, desabafo e cumplicidade, levemente abalada por meia dúzia de críticas – algumas rudes, grossas e pessoais – e por fim emocionada com a maneira como o texto reproduzido aqui na Pracinha sobre o programa Encontro, da Fátima Bernardes, que tratou de “Inclusão”, do dia 7 de julho, repercutiu. Foram, até o momento em que escrevo esse texto, 3.569 compartilhamentos no facebook, mais de mil “curtidas”, 500 comentários (só no meu perfil), 4 mil acessos no site (fora os 3 mil acessos no meu blog que eu divulgo muito pouco e não costuma receber tanta “gente” assim) e outras cenentas de comentários nos compartilhamentos de outros blogs e outros perfis que eu procurei ler, na medida do possível.

O texto repercutiu na coluna da Mônica Bergamo, que é a colunista mais lida do jornal de maior circulação nacional entre os impressos pagos, a Folha de São Paulo, e foi legal porque as pessoas puderam refletir, por cinco minutos que fosse, sobre um tema tão sério. Depois de tudo isso, uma coisa ficou muito clara para mim: a inclusão é uma das maiores angústias da vida de nós, mães e pais especiais. As pessoas me contaram histórias de luta e frustração, mas nunca de desistência, como aliás também é típico de pais especiais: não desistir.

E é por isso que temas como esse devem ser debatidos sempre. Fiquei um pouco triste, porque muita gente aproveitou o “oba-oba” para criticar pessoalmente a Fátima Bernardes, que é uma profissional acima de qualquer suspeita – ninguém senta na  bancada mais famosa do Brasil por tanto tempo por sorte ou obra do acaso – e execrar o programa, que sinceramente não costumo assistir. Na verdade, critiquei a forma como eles abordaram o autismo naquele dia, o fato de não terem ouvido o outro lado da moeda, o lado cruel da inclusão, das mães que não encontram vaga nas escolas sejam elas públicas ou particulares, da falta de preparo dos professores e diretores, da ausência de terapias gratuitas e de médicos aptos a dar diagnósticos.

Mas, isso, pais especiais estão carecas de saber. Toda essa discussão me fez pensar no que seria um modelo de inclusão para o Brasil e acho que três “itens” têm de ser de fábrica, são inegociáveis. O primeiro: teríamos de ter pelo menos um aluno diferente em cada sala de aula. Porque a conta é fácil: se 10 a 15% da população têm algum tipo de deficiência, esse deveria ser o percentual dentro das escolas, simples assim!

Segundo: currículo adaptado. Não dá para exigir que os autistas, por exemplo, façam equações e trigonometria da mesma forma que os demais. Eles não tem as mesmas “ferramentas” dos outros alunos para fazer isso. E, terceiro, esses alunos devem ter uma mediadora (que custa de R$ 600 a 1.500, por período de 4 a 5 horas por dia) para nos certificarmos de que eles não ficarão vagando pela sala, sem o suporte de uma professora auxiliar, alguém que explique a matéria da maneira que ele pode entender, que o ajude a interagir com os demais. Mediadora não é babá. Bem-treinada e orientada, ela vai saber a hora de entrar e sair de cena para promover o crescimento da criança. A maioria dos alunos com comprometimento intelectual vai precisar de uma facilitadora do seu lado, dependendo do grau do comprometimento. É claro que uma professora que mal dá conta de uma sala de 30, 40 alunos neurotípicos não vai conseguir dar a atenção necessária a uma criança com atraso no desenvolvimento. Desse jeito, acabamos com boa parte da reclamação dos outros pais, que dizem que os diferentes vão “roubar” o precioso tempo da professora que deveria ser dos filhos deles.

Conseguido isso, vem a segunda etapa, não menos difícil nem menos desafiadora, que é fazer esse aluno se sentir acolhido, aceito, amado, e conscientizar as pessoas que vão conviver com ele, como é bonito e importante ensinar às crianças e aos adolescentes valores como tolerância, paciência e respeito o quanto antes. E para isso não existe curso, seminário, nem dinheiro que resolva. É no dia a dia, é convivendo. 

Conheço uma mãe que, cansada de ver seu filho sofrer preconceito e ser deixado de lado das festinhas e na sala de aula, arregaçou as mangas e, sem querer, criou um “modelo” próprio de inclusão. Ela mandava bilhetinhos para os pais dos coleguinhas do seu filho na educação infantil explicando qual era a deficiência do seu pequeno autista… Ela pegou a inclusão do seu filhote pelas rédeas e conduziu com amor e sabedoria, substituindo o preconceito por informação. Entre outras coisas, essa mãe xerocou livrinhos infantis que tratavam das diferenças, como o “Ser diferente é normal”, e enviou cópias para funcionários, professores e pais de toda a escola…. E leu histórias como essas para todas as crianças… Falou que existe pessoas diferentes no mundo. E que ser diferente é normal! Pediu para que os pais explicassem aos seus filhos, de maneira didática e lúdica, o que era autismo, que pedissem que seus filhos não usassem metáforas ao falar com o seu pequeno e que quando rissem de alguma coisa perto dele, explicassem o que era, porque o garoto achava que era pessoal e se retraía (autistas têm dificuldades com duplo sentido). Pediu para que os filhos não rissem do seu filho, se ele fizesse algum gesto ou maneirismo estranho (estereotipia). Eu tenho o Luca, de 4 anos, e tenho um filho neurotípico de 5 anos e meio. E seu eu disser para o Thiago, de maneira firme e carinhosa, que não é para ele rir do coleguinha se o coleguinha fizer cocô e xixi na calça, por exemplo, ou ficar balançando de maneira diferente perto dele, e que não é para ele nem pensar em zombar do coleguinha que ainda não sabe falar como os outros… ele vai me obedecer! Se eu explicar para o Thiago que o amigo tem necessidades especiais e que ele precisa ajudar o amigo sempre que puder, ele vai ajudar! A criança exclui o que ela não conhece. O adulto exclui depois de conhecer.

Mas voltando à mãe… Ela não parou por aí!!! Ela orientou porteiros, faxineiras e funcionários da escola a fazerem sempre perguntas diretas para o menino do tipo: “João, seu dia está bom ou ruim?”, ao invés de “João, como está o seu dia?”, para que ele não se frustrasse por não conseguir responder uma pergunta que exige frase com sujeito, verbo e predicado (até então, com 7 anos, ele estava no estágio primário da comunicação, com poucas palavras soltas, sim, não..). E assim, aos poucos, ela foi “ensinando” as pessoas a lidarem com o filho dela. É muito bonito isso. Pelo filho, ela voltou para a faculdade, estudou pedagogia e ajudou a escola a fazer o material adaptado dele em todas as matérias – português, matemática, história, geografia, inglês….. De quebra, esse material virou modelo para as escolas públicas da prefeitura da sua cidade, no interior de São Paulo, e hoje ela dá palestras e ensina às escolas de todo o Brasil, terapeutas, mediadoras e professoras, como adaptar currículos e materiais para autistas e portadores de outras síndromes! Até os 6 anos, seu filho era não-verbal. Hoje, com 10, ele fala tudo, está totalmente incluído, é o xodó da escola. João desbravou caminhos e abriu precedentes. Desde então, outros autistas foram aceitos no colégio. Hoje, o garoto está no 4º ano e não precisa de mediadora. Os próprios colegas o ajudam a entender a matéria, o incluem nos grupos de estudo, se preocupam em chamá-lo para ir às festinhas e às peladas na hora do recreio. Essas crianças entendem as dificuldades do João porque cresceram com ele, ano a ano dentro de sala, e aprenderam aquilo que a mãe ensinara anos antes, quando eles tinham 4, 5, 6 anos: Ser diferente é normal! Depois de tudo isso, eu pergunto: Se UMA mãe de classe média pode fazer isso tudo sozinha, porque não podemos ter muito mais se contarmos com vontade política e mais gente a fim de arregaçar as mangas?

Bjo especial!
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