“Mamãe, desculpa por eu não dormir com você”.
“Mamãe, desculpa por eu ir com o papai no supermercado e não querer ficar em casa”.
“Mamãe, o que você quer que eu faça? Que eu escove os dentes agora? E você, papai? O que quer que eu faça?”
“Mamãe, desculpa porque eu não quero comer sozinho. O papai vai tratar de mim.”

Desculpa, desculpa, desculpa. Assim tem sido a rotina de Davi, meu filho mais novo, de seis anos. Sempre sonhei com um filho educado, mas não tão educado assim. Sei que o ser humano, dotado de inteligência, capacidade de escolha e discernimento, convive com o estigma da culpa desde que o mundo é mundo. Mas no caso de Davi, tem sido um excesso.

Não sei quantas desculpas ele me pediu nesta quinta-feira, só pela manhã, antes de sairmos de casa. Davi acordou e eu já estava na sala assistindo ao torneio olímpico de judô, atenta à luta da brasileira
Mayra Aguiar. Primeira no ranking da categoria meio-pesado, a judoca era favorita ao ouro. Acabou com o bronze. Mas isso não é o que interessa aqui. É pura mania de jornalista esportiva (rs).

Pois bem. Davi chegou e se sentou ao meu lado no sofá. Dei-lhe um beijo e um abraço de bom dia como faço sempre. O pequeno ficou por alguns minutos ali, quietinho. De repente, levantou-se e foi em
direção aos quartos. Fui verificar, logo em seguida, se ele tinha dormido novamente. Não estava em seu quarto. Tinha ido para a minha cama, deitar-se com o pai. Ao perceber minha presença, ele disse:
“Mamãe, desculpa por eu não querer ver o judô com você na sala e querer ficar com o papai na cama.”

Confesso que esse comportamento começou a me preocupar. Não sabia se caracterizava um transtorno obsessivo compulsivo ou o simples fato de não querer me magoar. Afinal, ele é aluciando pelo pai. E como já está numa fase de equilibrar diversão e responsabilidades, de criar conceitos e tirar conclusões, talvez tivesse imaginado que precisava deixar claro que não amava um mais que o outro.

Fui ler, então, sobre o tema. Um artigo disponível na web explicava que nessa idade (de 3 aos 6 anos na verdade), a criança aprende a ter iniciativa em vez de sentir culpa. Fiquei ainda mais preocupada, mas o que li em seguida me aliviou: “A criança reprimida pelos pais nessa etapa, sente-se culpada, cresce com medo e não desenvolve satisfatoriamente a imaginação e a criatividade.”

Davi jamais foi reprimido por qualquer coisa. Sempre mantivemos um diálogo aberto e criamos um ambiente de possibilidades em casa. O que não lhe falta é iniciativa, criatividade e discernimento em qualquer situação. Especialmente sobre o que é certo e errado. Por isso acho mesmo que não há nada de patológico no comportamento dele. Meu pequeno não quer mesmo é me magoar. E isso é muito bom.

Até o próximo post!