Olimpíadas mexem muito comigo. Histórias de superação, choro, chegadas emocionantes, público aplaudindo quem chega por último, reconhecendo a superação do atleta…. Como jornalista, tive o privilégio e o prazer de cobrir, in loco, duas Paralimpíadas. A de Sydney, em 2000, e a de Atenas, quatro anos depois. Se os Jogos dos tidos “normais” é de tirar o fôlego, o de pessoas que têm algum grau de deficiência, seja física ou mental, é de arrebatar o coração da gente.

São histórias lindas. Durante o Mundial Paralímpico de Atletismo de 1998, em uma corrida de 400 metros, de uma categoria de deficientes mentais que não me lembro mais, o mineiro Sandro Santos, um dos corredores da prova, tropeçou e caiu no meio do saibro da pista de corrida. O inusitado aconteceu. Todos os outros sete participantes pararam de correr no mesmo instante e voltaram para ajudar o “rival” a se levantar e a continuar. Sem se importar com o cronômetro, com linha de chegada, ou medalha. Pararam, simplesmente, para ajudar o “amigo”, de outro país, que estava no chão. E aí eu pergunto: normal é ajudar os outros ou pisar nele para continuar a prova, como vemos no atletismo dos “normais”?

Hoje, os Jogos Paralímpicos perderam um pouco do espírito de que “o importante é competir”, infelizmente. Virou uma competição de alto rendimento, com metas a bater, deveres a cumprir e patrocinadores a agradar, e com eles vieram parceiros indesejáveis como dopping e a vitória a qualquer preço.

Em 2000, fui cobrir a Paralimpíada de Sydney pelo Jornal Estado de Minas, à convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Foram convidados jornalistas do Brasil inteiro, com tudo pago, inclusive com uma diária de 50 dólares australianos, única forma de fazer com que a grande imprensa voltasse seus olhos para uma competição até então desconhecida e cheia de preconceito. Se os jornais tivessem de dar dinheiro para o jornalista se alimentar e se locomover lá provavelmente iriam vetar a viagem. Por isso, a proposta era irrecusável. Tudo pago MESMO!

Durante a cobertura, me lembro de conversar com coleguinhas de emissoras de TV e a preocupação dos editores no Brasil era não colocar no ar “imagens chocantes” de deficientes muito comprometidos para não estarrecer o pobre telespectador brasileiro. Deficientes bonitinhos, podia. Sem perna e braços, não!

No primeiro dia de prova da natação, um mexicano vítima de talidomida, caiu na água para a prova mais rápida da modalidade. Ele não tinha braços nem pernas. Era só tronco. Um dos árbitros literalmente o jogava dentro da piscina quando soava o alarme de início da prova. E assim, nadando apenas com a cabeça e o tronco, ele levantou a arquibancada em Sydney, que aplaudiu sua chegada de pé. Assisti a prova atônita e com lágrimas nos olhos. E ainda me lembro da recomendação das emissoras de TV de não expor o pobre telespectador brasileiro a “cenas chocantes”. Uma pena. Perderam uma das cenas mais emocionantes desses meus 16 anos como jornalista. Onze anos depois de cobrir minha primeira paralimpíada, em 2011 me deparei com o diagnóstico de TGD ou Autismo do meu filho Luca, hoje com 4 anos e um mês. E fico triste em saber que esse país mudou muito pouco desde então.

Pela maioria das pessoas, crianças especiais deveriam sim, continuar confinadas em escolas especiais, longe dos olhos deles, fora do “ar”. Já falei muito sobre inclusão. E cada vez me convenço mais que ela não existe no Brasil. Escolas públicas são obrigadas a receber crianças e adolescentes com deficiência, mas como não têm estrutura, a inclusão acaba se resumindo a jogar a criança na sala abarrotada de alunos e pronto. Muitas vezes essa criança estaria mesmo melhor amparada em uma escola especial.

A escola privada tem estrutura, mas não tem o interesse. Afinal, pode perder “clientes” se encher sua escola de meninos e meninas esquisitas…. Pode “chocar” os pais que pagam mensalidade e a sustentam. Nós não queremos encher a escola de crianças especiais. Isso não é inclusão. Pedimos apenas que 10% das vagas sejam destinadas aos especiais….

É. As escolas, assim como as emissoras de TV lá da Paralimpíada de Sydney, não querem chocar ninguém…. Chocada fico eu, cada vez que vejo escolas particulares dizerem a pais que elas não estão preparadas para receber a criança autista, down, com TDAH…. Aí você entra na justiça, porque é ilegal negar vaga, mas como não existe a menor boa vontade daquela escola para a criança permanecer lá, os pais, vencidos pelo cansaço, trocam seus filhos de instituição e iniciam a via sacra que só quem é mãe/pai especial conhece. Fala-se muito nessa época em espírito olímpico. Precisamos falar um pouco mais do espírito paralímpico!

Beijo especial,
Patrícia