Luca pega meu arco, coloca na minha cabeça e solta um “princhesa”. Do nada. Estávamos na cama, brincando com ele. Me derreto em lágrimas, papai durão fica com os olhos marejados, levanto, fico na frente dele feito uma doida e peço para ele repetir uma, duas, três, nada. Dou um grito de alegria, Thiago vem ver o que está acontecendo, vovô chega assustando, achando que alguém caiu da cama.

Salto, pego o coitado pelos braços e pergunto, parecendo uma louca: “Repete, Luquinha, o que você disse???”. “Luca, você chamou a mamãe de quê???” Repito “princhesa” 59.392 vezes, encho a bochecha gordinha dele de beijos e aproveito para chorar um pouco mais. Mãe especial é um monte de coisa, mas duas, antes de tudo: manteiga derretida e chata!
Luca não repetiu o “princhesa” por várias razões: porque não queria, porque não era mais o momento, porque ele não é macaco de auditório, mas principalmente porque a mãe dele tinha se transformado em uma plebeia depois de tanto alvoroço e ataque de loucura.

Ele olhava para nós e ria – porque a cena deveria estar engraçada mesmo –, mas ria também porque sabia que tinha feito algo diferente e que tinha deixado os pais orgulhosos. Fico me perguntando o que vamos fazer quando ele estiver falando frases inteiras, quando cantar uma música no dia das mães ou conseguir me contar como foi o seu dia na escola…


Eu choro muito. E não me lembro de ser tão emotiva assim pré-Luca. Será que ser mãe especial me deixou mais chorona???? Esses dias tenho batido o recorde. Em dois dias, chorei com “Uma babá quase perfeita” na TV, com o final de “Planeta dos Macacos”, com o ouro de Daniel Dias na Paralimpíada de Londres e com a música “Brincar de Viver”, que tocou no carro, depois de eu deixar filhos na escola e marido no trabalho, na última quarta-feira…. 
Vou contar uma coisa aqui que provavelmente vai mexer muito comigo de novo. E muita gente vai me achar exagerada, mas o que eu senti foi mais intenso do que a cena em si. Quando assisti a “Planeta dos Macacos, a origem” pela primeira vez, no cinema, assim que foi lançado, no São Luiz, pertinho de casa, ano passado, estávamos eu, minha pipoca de dois quilos e um refrigerante de 700ml curtindo o filme (amo a trilogia Planeta dos Macacos). Eis que uma cena me fez parar de comer, de beber, quase de respirar. Me deu um aperto no coração e um nó na garganta. 

No começo do filme, um dos macacos – que está sendo analisado pelo laboratório para um medicamento para Alzheimer –, faz uns testes cognitivos, de memória e de conhecimento e é aprovado em todos…. São coisas bobinhas, de sequência de cores, de lógica, formas geométricas, de atenção compartilhada, interação …. Algumas coisas que, naquele momento, o Luca ainda não conseguia fazer…. Aquilo acabou comigo. Foi como se o filme tivesse parado ali, na minha frente. As lágrimas escorreram sem eu perceber. Era um medo lá do fundo: será que um macaco é capaz de fazer mais coisas que o meu filho? (Eu sei que é um filme, gente).

Não foi algo que eu pensei, não foi racional. Foi um sentimento forte, que me arrebatou e me jogou longe. Me fez chorar várias vezes daquele momento em diante, até o final, quando eu me vi torcendo por macacos, gorilas, chimpanzés e orangotangos e pela derrocada da humanidade fria e perversa. 

Mães especiais são bombas emocionais. A gente nunca sabe quando, nem como a emoção vai estourar. Pode ser vendo um bando de macacos e chimpanzés; pode ser no meio do refrão da música que fala da “arte de sorrir a cada vez que o mundo diz não”; pode ser assistindo à Srta. Doubtfire (Robbin Willians) explicando para as crianças no seu programa de TV, que existem famílias de todo tipo, famílias diferentes, e que o importante é a forma com que cada uma aprende a expressar o seu amor, no final de “Uma babá quase perfeita”….

Pode ser ao ver a reação dos pais do nadador paralímpico Daniel Dias, ao ver, da arquibancada do Parque Olímpico de Londres, o filho de 24 anos receber uma medalha de ouro com direito a recorde mundial. Aquele mesmo filho que nasceu com má-formação congênita dos membros, sem os braços e uma das pernas, pesando apenas 1,97kg. Tenho certeza que, para aquela mãe, ele nem precisaria ganhar medalha nenhuma para ser o melhor do mundo. Bastaria colocar um arco na cabeça dela e dizer “princhesa”. Valeira mil ouros. E valeria um milhão de recordes.

Beijos especiais
Sempre aqui, na Pracinha!