Após os posts sobre preconceito e inclusão,  resolvi contar um pouco sobre a minha experiência com estes dois temas.

Desde o início da faculdade, comecei a fazer estágios com pessoas e em lugares que sofrem vários tipos de preconceitos. Primeiro estagiei em uma escola pública na periferia de Belo Horizonte. Depois de um ano fui estagiar no ambulatório infantil de oncologia do Hospital da Baleia, onde depois passei por todas as alas. E no último ano, fui trabalhar na Associação Mineira de Reabilitação (AMR) que atende crianças portadoras de doenças neuro-motoras (Paralisia Cerebral, Mielomeningocele, Distrofia Muscular Progressiva etc). Após a conclusão do curso, continuei trabalhando com estes públicos.

Existem dois tipos de preconceito: o primeiro aquele em que é feito um pré-julgamento sobre algo, não há um conhecimento sobre a causa e o segundo aquele que se sabe sobre o assunto e ainda assim há julgamento e exclusão.

Para o primeiro caso, temos uma solução: esclarecer a população sobre aquele assunto pelo qual, por ignorância, coloca as pessoas em má situação. Já o segundo é mais complicado, pois fazer com que uma pessoa esclarecida seja capaz de aceitar as diferenças não depende de conhecimento e sim de caráter.

Costumo dizer que todo ser humano é deficiente, sem exceção. Uns usam óculos, outros têm o nariz torto, outros são portadores de alguma síndrome etc. Não há nenhum ser humano perfeito sem nenhum tipo de deficiência por menor que seja. Alguns podem pensar “ah, falar assim quando você pode andar, escrever, falar e se socializar é fácil. Queria ver se você tivesse alguma deficiência severa se você falaria tão tranquilamente sobre isso.” Pois bem, após anos convivendo com várias crianças e adolescentes portadores de paralisia cerebral ou com câncer e suas famílias, pude aprender que a luta deles é árdua, mas é possível. E que muitos deles vivem mais felizes do que pessoas que vendem saúde e dinheiro.

Nesta caminhada já presenciei milhares de cenas preconceituosas. E o mais triste é que na maior parte das vezes, este preconceito vinha da própria família. Conheci várias famílias que foram desfeitas quando o filho foi diagnosticado com alguma doença ou síndrome. Já vi pais abandonarem tratamentos dizendo que seu filho não era robô para usar algum tipo de órtese ou prótese.

Mas também já convivi com milhares de famílias participativas, que correm atrás de tratamentos que querem o melhor para seu filho. E cheguei à conclusão que quanto mais informados sobre a doença, mais participativas as famílias se tornam. Pois sabem exatamente do que o filho precisa e aí tem condições de procurar o tratamento mais adequado para o mesmo.

Quanto à inclusão social, após acolhermos várias demandas de escolas de pacientes da AMR e do consultório, montamos um grupo com pedagoga, terapeuta ocupacional, psicóloga, fonoaudióloga e fisioterapeuta com o intuito de darmos consultoria e treinarmos os profissionais das escolas para receberem os alunos portadores de necessidades motoras. Mas infelizmente a maior parte das escolas que nos procurou depois ligou dizendo que não precisava de ajuda porque era muito fácil receber o aluno portador de necessidade especial, era só deixar ele quietinho. Ok, e onde está a inclusão, nisso? Sempre perguntávamos e a resposta era sempre a mesma “uai, ele está dentro da escola”. Pois bem, ainda tem-se um longo caminho para ser percorrido até podermos dizer que as crianças estão sendo realmente incluídas na escola. Pois a verdadeira inclusão só ocorrerá quando a criança, além de estar presente na escola, estiver aprendendo o que ela dá conta de aprender da maneira apropriada.

Para concluir, só gostaria de deixar bem claro que há milhares de maneiras de se trabalhar com crianças e adolescentes portadores de alguma doença neuro-motora. Coisas simples e baratas que podem facilitar e muito as atividades da vida diária deles e de toda a família. Como por exemplo, colocar um pedaço de borracha na caneta para ela ficar mais grossa e não escorregar ou fazer a mesma coisa com o garfo ou colher para ajudar na hora de alimentar, entre outras. O mais importante é nunca ficarmos paralisados com a deficiência, mas usarmos e abusarmos das possibilidades de cada ser humano.