Foto: EMMA/Reprodução

Não confunda liberdade com libertinagem. Não houve um dia sequer na minha adolescência que eu tenha passado sem ouvir essa frase. Meus pais sempre foram muito zelosos e amigos. Tínhamos liberdade para fazermos o que queríamos, mas sempre com coerência e ponderação. Respeito sempre foi a palavra de ordem lá em casa. Agora, tento repassar esses valores para os meus filhos. Especialmente porque vivemos numa sociedade na qual “tudo pode”.

Recentemente aqui, Na Pracinha, a pisicóloga Lucinda Mendonça, nossa parceira, tratou de tema semelhante no post “Ter filhos obedientes é possível”. Ela afirma que a nossa sociedade prega o direito à expressão infantil, que as crianças não podem ser cerceadas. Não, de fato não podem. Elas têm de ser mesmo estimuladas. Mas isso não quer dizer que é proibido estabelecer limites. O antigo ditado popular “educação vem do berço” nunca foi tão claro para mim como depois da maternidade.

Shiloh se veste como os irmãos com o apoio dos pais
As famílias “do mundo moderno” muitas vezes se destituem da função educativa e a delegam à escola. No meio dessa confusão, sem apoio em casa e, consequentemente, sem valores fundamentais ao bom convívio em sociedade, as crianças passam a atuar conforme modelos de conduta e referências bastante questionáveis.

João Lucas, meu filho mais velho, estudou até a 4ª série do ensino fundamental em escola pública. Como sempre foi acima da média (foi adiantado duas vezes e tem QI* elevado segundo teste aplicado pela UFMG naquela época), era exemplo a ser seguido, orgulho dos colegas. Mudamos de cidade e ele, já na 5ª série, foi matriculado em escola particular. Lá, ganhou o estereótipo de nerd e foi excluído do grupo. Certa vez, uma coleguinha promoveu uma festa e não convidou somente o João Lucas: “Você não vai na minha festa porque eu não gosto de nerd”, justificou a menina.

Ele ficou arrasado. E eu morri de ódio, confesso. Mas tive de manter o equilíbrio. Disse para não ter vergonha do que era porque ele era motivo de orgulho para muita gente. E era a colega de sala quem estava perdendo por não tê-lo como amigo. Disse também que não deveria tratá-la mal por causa disso, que mantivesse a mesma postura, que fosse educado e solícito. Respeito, nesse caso, seria fundamental.
Depois, liguei para a escola e relatei o ocorrido ao responsável. Alguns meses se passaram e a tal colega precisou de ajuda em matéria da qual não me lembro. E a quem ela recorreu? ao João Lucas.

Na semana passada, li matéria sobre um pai, na Alemanha, que passou a vestir saia porque o filho de cinco anos gostava de usar vestidos. O menino já era ridicularizado no jardim de infância por
causa disso. Depois que o pai adotou tal postura, o menino se sentiu mais seguro: “Vocês só não usam saias porque os pais de vocês não usam”, respondia toda vez que um colega o ofendia.

Para mim, esse é um exemplo significativo de boa educação. Educar os filhos nunca foi fácil. E está mais difícil a cada dia. Mas nós, pais, somos responsáveis por definir valores e objetivos, estabelecer
limites e, especialmente, semear o respeito.


* É uma medida obtida por meio de testes desenvolvidos para avaliar as capacidades cognitivas (inteligência) de uma pessoa em comparação ao seu grupo etário. A medida do QI é normalizada para que o seu valor médio seja de 100 e que tenha um determinado desvio-padrão (15).