Meu nome é Jucilene Braga, tenho 31 anos, atuo na área de responsabilidade social e terei em breve 2 filhos. Não que eu esteja grávida de gêmeos, rs, mas porque o Fernando, que será “o mascotinho”, chegará em breve como um presente de papai noel, pois seu nascimento está previsto até o final de dezembro.


Gianluca é o meu primogênito. Tem 8 anos e está na 3ª série do ensino fundamental. Gian como o chamamos, é uma criança muito esperta. Desde muito pequeno talvez por intuição já tirava todos os objetos do caminho para que a mamãe não tropeçasse. Me lembro como se fosse hoje que ainda quando tinha dois anos, ele colocou uma fralda em seu rosto e começou a andar com as mãozinhas para frente. Achamos graça e ele disse que era para ficar sem ver como a mamãe.

Sempre busquei não colocar responsabilidades sob suas costas tão frágeis e inocentes. Ainda quando grávida, era comum ouvir na rua que aquele filho seria o meu guia, me ajudaria muito. Eu ficava indignada, afinal o meu filho não havia nascido e já estavam colocando tarefas para ele. Faço questão de dizer para ele que sou eu quem cuido dele, e se por acaso na rua acontece os famosos tropeções, não é para ele se sentir culpado, pois isto é normal em meu dia a dia. Também tinham aqueles que faziam questão de comentar de forma descreditada sobre minha condição física e como uma pessoa cega pode cuidar do seu filho. Até entendo o espanto, a falta de conhecimento, mas para nós que sabemos até onde vai a nossa capacidade, é estranho escutar tais falas e assimilar de primeiro momento. Aprendi a conviver com estes disparates e hoje aguardo a vinda de mais um serzinho de luz. E o Gian está bem contente pela vinda do irmãozinho.
Acredito que um dos momentos mais marcantes que tive nas duas gestações foram os exames de ultrassom. Mesmo não vendo qualquer imagem, era sempre uma delícia ouvir as batidas do coraçãozinho e saber o que ele estava fazendo, em que posição se encontrava. Sentir os chutes também é uma sensação ímpar. No último ultrassom morfológico que fiz levei uma grande amiga para fazer a audiodescrição para nós. Foi lindo, maravilhoso, experenciar este momento. Por mais que os técnicos nos digam alguns detalhes, sempre tem mais alguma coisa que poderiam ter dito. Tenho certeza de que a médica também aprendeu um pouco mais sobre esta ferramenta poderosa que temos a nosso favor, que é o fato de transformar em palavras algo que não conseguimos enxergar.
Sabe, costumo definir que os medos, os cuidados, as ansiedades são as mesmas. Mãe é mãe em tudo quanto é lugar. Aquele ditado que fala que mãe só muda de endereço é bem verdadeiro. Me lembro que na primeira gestação fiz aquele famoso cursinho de preparação para gestantes. Era um curso numa faculdade e quem ministrava era uma professora que já havia dado aula para deficientes visuais. As aulas eram individuais e muito me ajudaram para cuidar do meu pimpolho, mas confesso que só o dia a dia me deu a experiência necessária.
Certa vez, estava com o Gian em um evento quando pedi para que alguém me mostrasse o banheiro para eu trocar suas fraldas. Uma amiga me levou até lá, mas uma outra bem curiosa foi espiar para saber como eu fazia para trocá-las, ainda mais porque naquelas haviam coisinhas sólidas (risos). Peguei o trocador, fiz todo aquele ritual de mãe com os materiais necessários e pronto, lá estava ele cheiroso e pronto para continuar a festa. Graças a Deus o Gian era bem quietinho, tanto que ao trocar as fraldas dele nem tive tantas dificuldades de fazê-lo parar com as perninhas. As pessoas tem muita curiosidade para saber como é feito este processo de troca, banho, dar comida… Tudo o que posso dizer é que na falta da visão, existem outros sentidos que podem ser explorados. Sentimos o cheiro, a textura, ouvimos o som da mamadeira sendo sugada, o som da respiração da criança, enfim, ficamos atentos a muitas outras coisas que as pessoas por enxergarem confiam muito mais na visão do que prestam atenção a estes fatores que são tão importantes.
É algo inexplicável, só vivenciando para terem uma ideia da real dimensão de como é tudo isto em nossas vidas, mas posso garantir que é bem mais fácil do que se imagina.
Nunca tive restrições para passear com o filhote. Quando Gian tinha 23 dias de vida, lá estava eu no consultório da minha terapeuta com ele. Hoje não sei se terei a mesma coragem de repetir isto com Fernando, afinal tudo anda tão cheio nesta cidade (São Paulo), que pensarei melhor no assunto. Isto não significa que não sairei com ele, muito pelo contrário, pois não tenho medo de desafios, mas tomarei mais cuidado quando sair pelas ruas. E para isto o canguru é um suporte indispensável, pois como temos que bater bengala com uma mão e segurar o neném com a outra, se torna um tanto quanto inviável, pois a medida que o tempo passa ele fica bem pesado e venhamos e convenhamos que haja coluna!

Não tenho palavras para dizer o que é ser mãe, algo tão sublime. Geramos outro ser a partir de junções, células que se dividem, pares de cromossomos, enfim, tantas coisas que parecem invisíveis aos olhos, mas que com o passar das semanas se transformam e ao final de 9 meses temos a chance de ter em nossos braços um pedacinho de nós. É um milagre que se renova a cada pessoa que tem esta oportunidade tão linda, tão valiosa e divina. Estou curtindo muito esta minha fase de mãe de um pequeno de 8 anos e mãe de mais um bebê que virá para encher as nossas vidas de um colorido pra lá de especial.

Para encerrar, quero compartilhar que após ter assistido a uma matéria  no Jornal Nacional sobre ultrassom com acessibilidade, fiz questão de pesquisar e achei o médico que me dará este presente. Em breve sentirei o meu pingo de gente em meus braços. E isto me dá uma euforia tão grande que vocês nem imaginam. Ainda não está sendo oferecido por outros laboratórios, mas a ideia é que todos tenham acesso no futuro. Imaginem a vida das futuras mamães num exame de ultrassom em que poderão contar com audiodescrição + oportunidade de tatear o seu bebê. Isto sim que é acessibilidade! 
E esta é a minha experiência. Espero ter agregado e contribuído para que saibam como é ser mãe sendo cega.