Não sei se a adolescência é pior para o próprio adolescente ou para a mãe de um adolescente. Sei que é uma fase muito difícil para os dois. De repente, como num passe de mágica, deixei de ter controle sobre
todas as coisas. Aquela criança linda, cheirosa, charmosa e carinhosa deu lugar a um rapaz lindo, cheiroso e charmoso, mas auto-suficiente e cheio de si. De “a mãe mais fofa e legal do mundo” recebi o título de “pagadora de mico universal”. O colega de sala assumiu o posto de melhor amigo de infância e, por muito pouco, não virei a inimiga a ser banida do universo.

Ele já sabe de tudo. Das coisas mais simples às mais complexas. Não precisa mais de ajuda, sobretudo de conselhos. Quer sair sozinho de ônibus, mas não quer se sentar à frente do computador para pesquisar qual linha serve para o seu destino. É onipotente (pelo menos acredita que é) e só se dá conta de que não é onipresente quando percebe que marcou mil compromissos com amigos diferentes em locais distintos.

A onipotência de um adolescente esbarra no conflito criado por ele mesmo. Sou mãe de um e tenho certeza disso a cada dia. Quando se dá conta de que não consegue resolver todos os problemas existentes na face da terra e que não vai mudar o mundo com suas teorias, ele desperta a criança adormecida. Deixo de ser a vilã da história criada por ele e volto a ser a heroína que vai salvá-lo dos monstros mais malvados. Haja paciência, serenidade e inteligência para administrar as variações de humor!

Certa vez, João Lucas decidiu ir à casa da namorada, que mora em um bairro vizinho, de ônibus. Naquele dia, eu estava de plantão, mas teria de chegar no jornal um pouco mais cedo para adiantar uma matéria especial para o fim de semana. Não sei por qual motivo, ele se recusou a pesquisar qual lotação deveria tomar. Disse que já sabia, que o sogro o havia informado e que eu não precisava me preocupar. Muito menos, tentar ensiná-lo. Tudo bem. Já que o sogro o havia explicado… Em certos casos, é melhor ignorar. Iniciar uma discussão naquele momento não nos levaria a lugar algum. Só nos desgastaríamos mais. A única informação que me deu foi que pegaria o ônibus no metrô.

Ele saiu e eu entrei para o banho em seguida. Uma hora depois não havia chegado à casa da namorada e comecei a me preocupar. Já dentro do carro e a caminho do jornal, recebi a ligação do João Lucas: “Mãe, peguei o ônibus errado. Quando percebi que estava dando muita volta, desci do ônibus e estou numa pracinha que tem uma guarita da polícia. O policial me disse que estou no Bairro Durval de Barros. Você pode me buscar. Se não der, eu dou um jeito.”

Meu mundo caiu. Não bastasse ter pegado o ônibus errado, ele desceu no meio do caminho, num bairro desconhecido que ficava em Ibirité! (só soube disso porque pesquisei antes no google, pelo celular, para saber como chegaria ao local). E ele tinha de ir ao Bairro Amazonas, localizado a cerca de 15 minutos de nossa casa! E ainda disse que daria um jeito! Como? Nem ele soube me dizer. Avisei no trabalho que chegaria mais tarde, vesti minha fantasia de Mulher Maravilha e desviei minha rota. Minutos depois, a namorada de João ligou para dizer que o pai dela o buscaria. Eu poderia ficar mais tranquila e seguir, normalmente, para o jornal. E assim foi.

No dia seguinte – quando cheguei em casa, ele já estava dormindo -, conversamos sobre o ocorrido, mas João Lucas não conseguiu me explicar o motivo de ter pegado o ônibus que não fora o indicado pelo pai da namorada. Muito menos porque desceu no meio do caminho, sem nem saber onde estava. Até tentou, mas não me convenceu. As explicações não faziam o menor sentido. Restou-me orientá-lo para que o episódio não se repetisse. Este, inclusive, é um dos vários episódios que norteam a minha vida desde que João Lucas fez 14 anos. Não tem sido fácil, confesso. Há momentos que serenidade me falta. Mas tento resolver os conflitos da melhor forma possível. Tento ser a heroína que ele espera quando a criança retoma o lugar do adolescente.