Já conversamos aqui Na pracinha sobre a fobia de botões, um medo um tanto estranho que andou deixando nossa colunista Ludymilla Sá preocupada com seu filhote.

Hoje, a psiquiatra, psicanalista e preceptora da residência de psiquiatria do Instituto Raul Soares/ FHEMIG, Maria Cristina Bechelany, conta pra gente que essa fobia, apesar de acometer uma parcela pequena da população, é real e pode precisar ser tratada. Vale ficar de olho para acompanharmos nossos pequenos.


Um medo intenso e desmesurado, gerador de tensão e ansiedade, é o que se pode entender quando se fala de fobias. Este medo é impossível de ser controlado e traduz-se por uma reação intensa de se evitar o objeto causador da fobia. A fobia gera uma angústia intensa e o individuo acometido por ela fará o que estiver a seu alcance para evitar este sentimento desagradável. Do ponto de vista da psiquiatria, estes medos irracionais fazem parte dos transtornos de ansiedade e mais especificamente, dos transtornos fóbicoansiosos. 
A fobia de botões pode ser considerada como fazendo parte dos quadros de fobia específica, ou fobia simples. As fobias específicas são medos desmedidos, desproporcionais e restritos a situações altamente particulares. Estas situações podem ser as mais variadas possíveis, como por exemplo, a fobia de avião, de escuridão ou de espaços fechados. A fobia de botões, apesar de bem menos comum que as anteriores, é também considerada uma fobia específica.

As fobias são reconhecidas pelos seus portadores como algo irracional e sem sentido, entretanto eles não conseguem controlar seu medo e suas condutas de evitação, que se tornam completamente necessárias para se evitar a angústia provocada pela ameaça do confronto com o objeto fóbico. 

Em geral, as fobias simples surgem na infância e somente raramente no adulto. Sua prevalência na população gira em torno de 10%. Podem persistir por vários anos, ou até mesmo por toda a vida, se permanecem sem
tratamento. A questão da busca do tratamento e da gravidade do quadro para o indivíduo acometido pela fobia depende do quão comum é o contato do indivíduo com o objeto de sua fobia. Ter medo de cobra para alguém que mora numa cidade grande é bem menos complicado do que uma fobia de botão.

Pouco se sabe sobre a etiologia de uma fobia específica. As teorias mais biológicas levam em conta a influência da genética e dos circuitos neuroquímicos. Entretanto, desde os trabalhos de Freud sobre a teoria da neurose, associando seu desencadeamento a uma experiência traumática vivida na infância, a etiologia psicogênica da fobia simples foi aludida a partir do estudo de um caso clínico paradigmático de neurose fóbica numa criança. Trata-se do caso do pequeno Hans, cuja fobia de cavalo trouxe os elementos necessários para que Freud formulasse uma relação detalhada entre fobia e sexualidade infantil.

Hans era um garoto de pouco mais de 4 anos que apresentava vários questionamentos sobre seus órgãos sexuais, as diferenças dos sexos, o nascimento dos bebês, etc. A vivência de sua sexualidade e do complexo de édipo próprio deste momento, como nos mostra Freud, ocasiona em Hans um inevitável temor de castração. A ansiedade que este medo lhe desperta será deslocada para um objeto externo, mais fácil de ser suportado, mas que será responsável pelo desenvolvimento de uma fobia, no seu caso, de cavalo. O ponto central da teoria de Freud, tão bem destacado nesta história, enfatiza o quanto as questões da sexualidade infantil, quando mal orquestradas, fundam o complexo nuclear de uma neurose. A partir deste ponto de vista, a fobia, considerada uma neurose, seria suscetível ao tratamento psicanalítico.