Quando o Luca começou a falar as cores, eu ficava feito uma barata-tonta atrás do pobre do menino perguntando para ele a cor de tudo que aparecia na frente. Ele falava, tudo era uma festa, eu ria, me emocionava, chorava, blá blá blá… De repente, ele parou de responder. E eu entrei em pânico. Será que ele esqueceu? Desaprendeu? E a terapeuta me aclamou, de certa forma. “Passou pela sua cabeça, mãe, que ele não aguenta mais ficar respondendo a perguntas que ele já sabe a resposta, e pior: que ele sabe que você também sabe? Ele deve pensar ‘que saco, lá vem aquela chata me perguntar isso pela milésima vez'”. Me senti uma idiota. Hoje o Luca fala as cores das coisas quando isso tem relevância. E eu aprendi mais uma lição.

Ultimamente, o número de “clicks” que eu faço do meu caçulinha de 4 anos – diagnosticado com Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) aos 2 – é muito, muito maior agora do que antes. E muito maior do que o número de fotos que eu tiro do Thiago, meu outro príncipe de 5 anos, que é neurotípico, por exemplo.

É que o Luca está começando a fazer coisas que ele não fazia antes: falar, formar frases, responder perguntas, dizer o que quer com vontade e entonação, olhando no olho… Eu tirava milhares de fotos do Thiago quando ele estava nessa fase também.

Agora, o Luca começou a querer participar de peças de teatro, de festinhas, de aulas de capoeira e futebol, de brincar com outras crianças, coisas que ele antes não tinha interesse em fazer. E virei aquela mãe babona, que não quer perder nenhum click. Antes, ele sequer olhava para câmera…. Ele ainda está longe de ser uma criança como as outras de 4 anos. Mas, hoje preferimos e optamos por dizer que o copo está é meio cheio. Não reclamo mais. Perdi um colega de profissão há 10 dias para o câncer. Ele morreu, aos 40 anos, 40 dias depois de ter realizado o sonho de ser pai. Eu e o Daniel somos muito afortunados por podermos acompanhar o desenvolvimento dos nossos pequenos.

Curto e me emocionou com cada avanço do Luca, porque só quem escuta um diagnóstico de autismo ou qualquer outro nome dentro desse quadro, sabe o valor do aprendizado. É que nossos filhos típicos aprendem por osmose, parece. Aprendem só de ver. Quando você assusta, eles já estão falando pelos cotovelos e dizendo palavras e expressões que você não sabe de onde ele tirou. 

Tiro fotos, registro e coloco na internet para que a família – que vive espalhada em estados como Minas, São Paulo e Porto Alegre – e amigos do coração (aqueles que torcem mesmo e que se importam com a gente), possam ver como o Luca está evoluindo ao seu tempo. E que possam acompanhar seus passos.

Faço isso também para mostrar para as mais de 300 mães especiais que tenho como amigas, e outras tantas que queiram ler, que é permitido ter esperança. Porque houve um tempo em que eu não sonhava. Eu vivia sufocada no pesadelo de achar que não havia saída. A vitória do Luca, mesmo que pareça pequena para muita gente, pode ser o início da vitória de outra criança. Como foi no início da nossa caminhada. Histórias como as que eu posto agora me levavam às lágrimas na frente do computador quando eu não tinha esperança de nada. Palavras de outras mães, e não de médicos, é que me tiraram do chão.


Posto 49394 fotos e vídeos como se eu quisesse e precisasse acreditar que isso está acontecendo, que o Luca está evoluindo. Porque houve um tempo – e acredito que muitas mães especiais passam por isso, logo após o diagnóstico, principalmente –, que eu achei que ele nunca falaria, nem me daria um beijo. Houve um tempo em que ele parou de falar “papai e mamãe” e ficou assim por mais de um ano. Foram tempos muito difíceis. Ele não me olhava nos olhos, não respondia ao ser chamado e não se importava se eu estava perto ou longe.

Por isso, me desculpem se sou piegas e posto milhares fotos e vídeos do Luca dizendo o que parece óbvio para muita gente e normal para uma criança de 4 anos. É que me falaram que, talvez, isso nunca fosse acontecer.

Por isso, eu celebro muito as pequenas coisas. Porque sei que houve um tempo em que elas não existiam e eu rezava, rezava muito, implorava para que elas acontecessem. Me lembro de chamar o nome dele e pedir em silêncio. “Por favor, Luquinha, olha par mim, me mostra que você está nesse mundo, que esse negócio de autismo é mentira, olha, por favor, olha”.

Me policio para celebrar as conquistas do Thiago também. Na mesma intensidade e com o mesmo entusiasmo. Na verdade, isso virou algo normal para nós aqui em casa. Porque, de certa forma, conviver com o Luca nos fez dar um valor enorme ao milagre que é a vida. E como é gostosa a arte de ensinar e aprender com os nossos filhos, sendo eles típicos ou não.

Um beijo especial, sempre aqui, Na Pracinha!