O mês de dezembro é de festas sim, mas para nós, mães especiais, lembra tormento. É quando a maioria de nós está correndo atrás de escolas, ou melhor, de uma vaga para os filhos para o ano letivo seguinte. É um drama, gente. Minha busca começou há quase 3 meses, no dia 3 de setembro, quando visitei a primeira escola. Atualmente, o Luca (que tem diagnóstico de Transtorno Global do Desenvolviemnto) está numa escolinha pequena que praticamente se tornou uma escola especial. A dona da escola é maravilhosa, de um coração do tamanho do mundo. E aceita crianças especiais de braços abertos. Nada contra escolas especiais. Se acharmos que é a melhor opção para o Luca, que é onde ele vai se desenvolver melhor e com segurança, vamos para lá. Mas achamos que está na hora dele conviver com mais crianças que falam, que sirvam de espelho. Acho mesmo que ele pode dar um salto com essa mudança. Se não der certo, a gente volta para a escola especial. Mas, precisamos tentar para não ficarmos o resto da vida com a pulga atrás da orelha, sem saber como tería sido se tivéssemos tentado….

Não vou citar nomes dos colégios envolvidos para me poupar de bate-bocas desnecessários para os quais não tenho tempo nem paciência. E também para não desanimar outras mães. Nosso papel também é de formiguinha. Temos de sempre acreditar que aquela escola é capaz de incluir e insistir… Vai que um dia cai a ficha e a instituição se toca que não vivemos em um mundo só de pessoas tidas normais e aplica os 10% de vaga para crianças especiais como, aliás, manda a lei.

Vou contar um pouco das pérolas que ouvi pelo caminho. A primeira escola, bem conceituada aqui no Rio de Janeiro, católica, adorou saber que tinha dois filhos nas idades de 4 e 5 anos procurando vaga. Mensalidades de mil reais por mês cada um. No entanto, o semblante da coordenadora pedagógica mudou quando falei que o mais novo tinha diagnóstico de TGD. Expliquei que ele tinha evoluído bastante no último ano, já estava falando, identificava letras, números, cores, formas, tinha desenvolvimento motor normal e, de acordo com os terapeutas, é uma criança absolutamente “incluível”, com dificuldade em inteiração social sim, mas com interesse em fazer contato com os coleguinhas.

A partir desse momento, a vaga do mais novo “sumiu”, aparentemente já havia crianças incluídas na escola e a coordenadora me deu um conselho – que eu não pedi – para tentar livrar sua cara. Disse: “mãe, porque você não mantém o seu filho na escola que ele está? É melhor pra ele…”. Com todo respeito, coordenadora querida. Quem tem de saber isso somos nós, os pais. Ficou de nos ligar em novembro, quando as matrículas começariam. Estou esperando até agora o telefonema. Antes de sair, ela me falou já quase justificando o fato de que não iria ligar mesmo. “Somos uma escola de Enem, mãezinha”.

“Escola de Enem”. Pensar em Enem na educação infantil, para crianças de 4 anos, sinceramente, é insano! As escolas estão enlouquecendo por causa do Enem…. E deixando de aceitar crianças especiais porque não querem ser vistas como escolas humanas, e sim escolas que exigem e exigem cada vez mais das crianças, como se isso fosse fazer delas mais fortes no futuro. Criança que brinca é mais forte no futuro. Criança que se sente acolhida, feliz, que aprende de forma lúdica, é mais forte no futuro….

Outra escola, construtivista, também ficou de me ligar depois de saber que procurava uma vaga de inclusão e nunca mais me ligou. Outra disse que se a criança não passar no teste cognitivo não é aceita. Eram 160 crianças fazendo “vestibular” para 30 vagas no Maternal III. Nem me dei ao trabalho…..

Fui para a rede pública. Afinal, ela tem duas coisas que a escola particular não tem: vaga (por lei) e experiência com todo tipo de criança e de diagnóstico. As escolas públicas boas, de referência, têm fila de espera na educação infantil. Fui a uma mediana para visitar. Eu e meu marido entramos por volta das 13h30, sem avisar. Queríamos mesmo ver o dia a dia da escola. Não tinha porteiro. O portão estava aberto, entramos e demorou um tempo até que alguém se desse conta de que havia dois estranhos circulando nos corredores. Corredores imensos, parecia abandonada. Tinha uma turma inteira de primeiro ano no corredor, brincando e tocando terror porque aparentemente a professora tinha faltado. A coordenadora pedagógica nos recebeu, foi muito simpática, mas disse de cara: “olha, mãe, vou ser sincera. Temos pouca gente. Não temos estrutura para receber uma criança especial”. Crianças a partir de 4 anos têm de ir sozinhas ao banheiro e se limpar com autonomia, porque não tem quem faça. Banheiros imensos, que elas dividem com adolescentes de 15 anos sem nenhum adulto para supervisionar. Saí correndo.

Outra escola particular foi maravilhosa. Fez entrevista com o Luca e o achou super “incluível”. Até chorei de felicidade com a bondade da coordenadora. À essa altura, eu já tinha matriculado o Thiago na escola que queríamos já há algum tempo e já estávamos cientes de que teríamos de ter os dois em escolas diferentes. Aí, semanas depois, sabendo que não iríamos colocar os dois nessa escola, a coordenadora que tinha adorado o Luca, praticamente condicionou a vaga dele à matrícula do Thiago. Um amigo meu resumiu bem o que isso é: “venda casada”. Tipo: só aceito o seu filho especial só se você matricular o “normal”.

Fico imaginando as pessoas que têm menos recursos e informação do que a gente. É desesperador. Entrar na justiça por vaga é uma opção. Mas quem vai querer deixar seu filho em uma escola em que você está processando? Já disse aqui outras vezes e repito. As escolas são espelho da sua sociedade. Que é preconceituosa e acha que conviver com os diferentes é sinal de fraqueza. Muitas escolas não se interessam mais em formar cidadãos. Querem números, resultados e uma boa posição no Enem. Muitos pais também querem isso. Filhos bem-sucedidos, nas melhores faculdades.
Esqueceram de dizer que é possível ter isso e ainda conviver com os diferentes. Uma coisa não exclui a outra.

Um beijo especial
sempre aqui, Na Pracinha!