Foto: Favim

Foram três semanas de euforia, tristeza, revolta e muita reflexão. Explico a seguir.Até o dia 27 de dezembro do ano passado, ou seja, cerca de 10 dias atrás, uma pessoa com TEA (Transtorno do Espectro Autista) não era considerada uma pessoa com deficiência neste país. Pelo menos não perante a lei. Isso acabou com a Lei 12.764 sancionada pela presidenta Dilma Roussef – inclusive com os vetos propostos pelas associações -, sem dúvida uma vitória para os autistas brasileiros, seus familiares e amigos. A lei está sendo chamada de Lei Berenice Piana, em homenagem à mãe, lutadora e guerreira, que briga há anos pelos direitos legais. O link da publicação no Diário Oficial está aqui.

A lei prevê punições para atitudes discriminatórias, como multa de três a 20 salários mínimos e sanções administrativas para a escola que recusar a matrícula de aluno com autismo. Em caso de reincidência, os gestores que se recusarem a matricular alunos com transtorno de espectro autista poderão perder o cargo.

Um dos maiores avanços, no entanto, na minha opinião, foi deixar claro que autista é uma pessoa deficiente. Porque quando você chega para um plano de saúde pedindo o ressarcimento de parte do que é pago em fono, psicólogo, terapeutas ocupacionais e neurologistas, você não vai estar mais pedindo esmola. É lei. Eu brigo todo mês com o meu plano de saúde para ele me ressarcir nem 15% do que eu gasto com o Luca em terapia. Isso, com laudo de neurologista e pedido médico de sessões de terapia em mãos! Quando você for a uma escola e de repente a vaga “desaparecer”, como aconteceu comigo pelo menos quatro vezes nos últimos dois meses, você tem a opção de acionar essa instituição legalmente.

A vitória no Congresso, no entanto, chegou junto com duas rasteiras para as famílias dos autistas fora de Brasília. No dia 16 de dezembro, a psicóloga Betty Monteiro fez uma análise superficial, perigosa e leviana no Programa do Faustão sobre o jovem que matou adultos e crianças em uma escola de Connecticut, nos EUA no dia 14, dando a entender que ele teria tido surto violento por ser Asperger (dentro do espectro do autismo), o que é um erro absurdo.

Aspergers são conhecidos justamente por sua inocência. Costumam não entender o duplo sentido das coisas, a maldade, as brincadeiras. Por isso sofrem bullying na escola, são considerados “esquisitos” na nossa sociedade e eles, sim, são alvo de violência física e psicológica. Nada impede que o garoto fosse asperger e psicopata. Mas com certeza ele não era psicopata porque estava no espectro do autismo. E muito pouco se sabe dele agora, que morreu e matou a mãe. Portanto, são especulações que beiram a leviandade. Ir em rede nacional e relacionar autismo com psicopatia é, no mínimo, irresponsabilidade. Existe uma classe de pessoas que luta para acabar com esterótipos, que luta pela inclusão social e por direitos legais. Aí vem uma psicóloga e dá a entender que a chacina aconteceu porque o garoto era autista… Depois ela ainda chama de sinais de psicoptia o colega de trabalho que mente, que engana e o cara que trai a mulher. Não sou psicóloga, mas conheço pessoas que mentem, que traem e que não são psicopatas. Por favor!

Na semana passada, Lya Luft me publica uma pérola na revista semanal de maior circulação do país. Fiquei até mais estarrecida com ela do que com as baboseiras da Betty Monteiro no Faustão. Lya Luft, profunda conhecedora da alma humana, praticamente manda trancafiar os diferentes em casa porque, aparentemente, todos são um perigo para a sociedade e atiradores de crianças em escolas em potencial.

Segue parte do texto: “Precisamos, sim, rever em toda parte nossos conceitos, leis e preconceitos quanto a doenças mentais. O politicamente correto agora é a inclusão geral, significando também que crianças com deficiência devem ser forçadas (na minha opinião) a frequentar escolas dos ditos “normais“ (também não gosto da palavra), muitas vezes não só perturbando a turma, mas afligindo a criança, que tem de se adaptar e agir para além de seus limites — dentro dos quais poderia se sentir bem, confortável, feliz. Pessoas com qualquer tipo de transtorno mental devem ser cuidadas conforme a gravidade de sua perturbação, que pode ser leve ou chegar a estados perigosos para si mesmas ou para os demais — o que na maioria das vezes irrompe ou se agrava no fim da adolescência. Mas em geral, pela tremenda dor de termos um filho ou filha com tais problemas, fingimos que nada ali é “anormal“ (detesto essa palavra também).”

Foto: Favim
Não sei nem por onde começar. Jogar toda e qualquer deficiência na vala da violência é coisa da Idade Média, quando se trancafiavam os doentes mentais à própria sorte em calabouços com pão e água. Dizer que as crianças com deficiência são “forçadas” a ir para a escola? A imensa maioria delas cresce e se beneficia com a inclusão. O espelho da “normalidade” as ajuda a evoluir. E o contrário também. Conviver com as diferenças cria cidadãos mais humanos, tolerantes, sensíveis.

Esse argumento de que a inclusão deixa a criança “aflita” é o mesmo usado por escolas que não querem aceitar nossos filhos. “Mãe, ele vai ficar melhor em uma escola especial, uma escola menor”. Eu ouvi isso de um colégio respeitado e católico da Zona Sul do Rio de Janeiro. Como se esses colégios estivessem embuídos em um bem maior, um autruísmo genuíno, pensando no bem-estar das nossas crianças. Quem disse isso? Acredito que em alguns casos a escola especial seja uma opção, mas depois de se esgotar TODA e qualquer possibilidade de inclusão.

A gente enche um balde de leite durante anos, gota a gota, com dificuldade e muito jogo de cintura, consegue aprovar uma lei que pode melhorar a qualidade de vida das famílias e dos autistas, e que pode ir, aos poucos, educando a sociedade a aceitar as diferenças como algo normal. Aí aparecem duas profissionais e dão um chute nesse balde em questão de segundos, reforçando preconceitos e estereótipos que já caíram por terra há muito tempo, falando asneiras em rede nacional e em revistas de grande circulação, dando um recado muito claro para a sociedade: “Tenham medo dos diferentes, tranquem os deficientes em masmorras e não acreditem nesse “modismo” chamado inclusão”. Lamentável!