Definir a escola e uma mediadora. Fim de janeiro é um tempo de definições importantes na vida dos nossos filhotes especiais. Graças a Deus, já passei pelo pesadelo de encontrar um colégio disposto a fazer inclusão com o Luca. Mas, de setembro até dezembro do ano passado, foram muitos “nãos”, desculpas evasivas, vagas que sumiram… dá angústia só de lembrar. Agora, estou no momento de definir uma mediadora. Tarefa igualmente difícil. Primeiro, faltam profissionais boas no mercado. Segundo, justamente por isso, elas não saem barato para os nossos bolsos, já tão atolados com contas de terapia, neurologistas, tratamento biomédico, aulas de esporte, lazer…

Não que elas estejam pedindo muito. O valor final, entre carteira assinada e passagem, fica em média entre R$ 1.000 e R$ 1.800, pelo menos aqui no Rio de Janeiro. O trabalho vale, afinal de contas, sem ela seu filho provavelmente não será aceito em uma escola regular, dependendo do grau de comprometimento, e ele pode não aproveitar como deve as preciosas quatro horas de estímulo que ele terá no colégio. É que, para nós, mães mortais, esse valor pesa demais no bolso. Principalmente, por que não é a única despesa que se tem com um filho especial. E, muitas escolas, especialmente as que estão começando com a inclusão, que ainda são inexperientes e inseguras, praticamente condicionam a matrícula do seu filho à contratação de uma mediadora junto.

Mediadora é como seguro saúde. Você paga, mas espera nunca precisar efetivamente dela. O que esses anos de prática e de Luca me ensinaram sobre mediadora? Primeiro, que ela não é babá. Ela não está ali para proteger seu filho, para evitar que ele se meta em confusão, não está ali para carregá-lo, para segurar o lápis para ele, muito menos para ser a amiguinha dele na escola, o amuleto social, já que quem está no espectro autista tem dificuldades nessa área.

A mediadora tem de aparecer o mínimo possível. Quero que o Luca se sinta aluno da professora dele, não da mediadora. Por isso, peço para que ela “finja” que é uma auxiliar da turma, uma segunda professora na classe. Primeiro, porque dessa forma o Luca não vai se sentir diferente dos demais por ter uma professora só para ele. Segundo, porque é bom que ela não esteja o tempo todo disponível. Ele precisa se virar, precisa tentar aprender junto com o restante da sala. Se começar a “voar”, a se distrair com alguma coisa, ou ficar relutante a fazer um ou outro trabalhinho, aí sim, a mediadora entra, fofa, mas firme, para tentar fazer com que ele siga os demais. Ela está ali para, como diz o nome, “mediar” a relação entre ele e a professora, entre ele e o novo espaço físico, entre ele e os coleguinhas…

Seguir os coleguinhas é tudo o que a gente quer que os nosso filhos façam… Por isso, brigamos tanto pela inclusão. O Luca tem 4 anos e meio e esta será nossa primeira experiência em escola regular desde o diagnóstico, de Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) há dois anos. Durante um ano e meio, ele ficou em uma escolinha pequena, que aos poucos se tornou uma escola especial. Ele evoluiu muito, mas agora achamos que ele precisa desse espelho, desse outro coleguinha típico, para que ele possa ganhar novas habilidades, imitando o que a gente chama de “normal”.

Para mim, ser mediadora é um dom. Não é um trabalho, é quase uma missão, como eu vejo em profissões como enfermagem, fisioterapia… Se dedicar a pessoas que fogem do padrão normal não é para todo mundo. A entrevista é fundamental. Você tem de gostar dela (como profissional) e do jeito dela. Serão praticamente irmãs durante um tempo. Ela precisa de ter a liberdade para te falar as coisas que estão indo bem e as que não estão. Você tem de estar aberta a ouvir críticas sobre seu filho, sobre aquilo em que ele ainda não é bom e você vai ter de conversar e discutir com ela estratégias para que ele se desenvolva nesta área.

Sim, você vai discutir estratégias com ela. Depois de um tempo, a gente sente que entende de tudo um pouco: pedagogia, psicologia, fono, medicação, tratamentos alternativos, terapias… às vezes me pego falando de lateralidade, atividades de desenvolvimento da coordenação motora fina, ômega 3, vitamina D, alimentos com e sem glúten, exercícios de fono e tipos de tratamento, como se tivesse feito faculdades de tudo isso. E eu vejo isso em dezenas de outras mães com as quais eu converso. Viramos polvos, com tentáculos em todas as áreas que possam desenvolver os nossos pequenos.

Uma agenda para “conversar” com a sua mediadora é fundamental. Serve para você definir essas tais estratégias e, com base nas anotações dela, conversar com as outras terapeutas do seu “time”. Sim, eu tenho um time. E, se a neurologista é a camisa 10 da sua equipe, aquele jogador que arma as principais jogadas, a mediadora é sua camisa 9, seu “homem-gol”. Ela vai mediar sua relação com a escola, que costuma ser delicada. Primeiro, porque muitas escolas ainda acham que estão te fazendo um favor por aceitar o seu filho. E, segundo, porque, não se engane, o preconceito ainda existe e muitos pais acham a inclusão linda, desde que não seja na sala do filho deles – não são todos, mas esses pais existem. Não adianta também contratar esse centroavante maravilhoso, se ninguém passa a bola para ele. Os profissionais envolvidos precisam se comunicar, trabalhar juntos, com objetivos definidos. Por isso, escolher esse camisa 9 requer um faro que só mesmo nós, mães especiais, temos. Não deu certo? Contrate outra! Afinal, a treinadora é você! Quem escala o time é você!

Um beijo especial, sempre aqui, Na Pracinha.