Um dos grandes desafios de ser mãe de adolescente é passar a ser conselheira sentimental de alguém que, aos meus olhos, será sempre a “minha menininha”. Pois bem, essa fase chegou! Começaram as perguntas, dúvidas e angústias sobre relacionamentos amorosos e confesso que, num primeiro momento, fiquei meio sem reação. Após acompanhar um pouco do universo amoroso adolescente, no entanto, comecei a querer me aprofundar no assunto. Hoje em dia, meninas cada vez mais novas “ficam” com vários meninos, na mesma noite, e isso é encarado por elas e por eles como sendo normal. Tal comportamento é uma manifestação do conceito de “amor líquido” que o sociólogo Zygmunt
Bauman aponta como tendência nos relacionamentos pós-modernos.

Explicando melhor, o que Bauman argumenta em seu livro é que a sociedade de consumo reproduz a lógica de mercado também nos relacionamentos afetivos. O amor romântico, com toda a sua intensidade, dá lugar a outro tipo de amor, mais frágil, duvidoso, frouxo, livre e inseguro. O resultado é que predomina um imediatismo nas relações, ou seja, prevalece a ideia de que o outro deve ser rapidamente “consumido”, pois tem prazo de validade, se esvai. Um dos aspectos negativos da pós-modernidade é, portanto, o caráter superficial e descartável das relações interpessoais. Bauman explica que hoje existe uma multidão de solitários, “estamos todos na solidão e na multidão, ao mesmo
tempo”. Ele também apresenta duas dimensões – segurança e liberdade – que guardam estreita relação com a questão da felicidade afetiva. Para o autor, segurança sem liberdade é escravidão e liberdade sem segurança é o completo caos, a desordem.

É fato que no campo sentimental há avanços históricos ligados à liberdade sexual, ao direito ao divórcio e à possibilidade de livre escolha do (a) parceiro (a). Por outro lado, acabamos desregrados, desfrutando de uma liberdade excessiva que reduz o nível de segurança básico de que precisamos para nos sentirmos bem. O que é problemático, portanto, é a incapacidade da maioria de nós de equilibrar as duas coisas. Buscar esse equilíbrio é um processo de aprendizado para a vida toda, e eu digo isso pra minha filha. Conversamos bastante, trocamos ideias, impressões, pontos-de-vista. Não tenho como estabelecer uma “fórmula milagrosa” pra ela se dar bem nas coisas do coração, mas posso ajudá-la a criar sua própria fórmula ideal de vida afetiva, estimulando-a a buscar experiências significativas, a seguir sua intuição e a saber o que esperar das pessoas.

Eu, como mãe, acho fundamental prepará-la para se tornar uma pessoa “inteira”, culta, focada em vivências significativas, com seu próprio universo de interesses. Assim, buscar outra pessoa também “inteira” torna-se mais fácil. Essa coisa de achar a nossa “metade” é complicada, pois se a metade amorosa vier a faltar um dia, ficará um enorme vazio existencial. Eu sempre brinco com a Giovanna:
existe a ginástica labial e existe também uma conexão emocional mais profunda entre as pessoas. O fundamental é saber diferenciar isso, e, principalmente, saber o que você quer no momento. Realmente é muito frustrante ter apenas ginástica labial quando se quer relacionamento sério. E o contrário também: ter relacionamento sério quando se quer curtir a vida sem compromisso.

Se conseguirmos identificar e expressar bem nossos desejos, encontraremos pessoas nessa mesma sintonia e, a partir daí, construiremos relações que podem ser muito ou pouco duráveis, mas que refletem o que valorizamos, de forma direta, honesta, verdadeira. Pensando bem, há coisas que não mudam tanto assim com o tempo, pois todos nós queremos ser felizes, não sozinhos, e mas sim em boa companhia! Para terminar nosso papo, deixo aqui algumas dicas de livros e filmes que abordam a questão. Divirtam-se!

Livros:

:: Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos. Autor: Zygmunt Bauman. Editora Zahar.
:: Ficadas e ficantes. Autora: Angélica Lopes. Editora Rocco.

Filmes:

:: 500 dias com ela (EUA, 2009, romance).
:: 10 coisas que eu odeio em você (EUA, 1999, comédia).
:: As vantagens de ser invisível (EUA, 2012, drama).