Luca escrevendo o nome, fazendo o dever de casa e brinquedos de faz de conta, de imaginação… esse domingo foi de revelações para mim. E se tem uma coisa que essa vida de mãe especial me ensinou é que existem dias bons e ruins. Que não devemos cair nos ruins. Nem nos sentir auto suficientes demais nos bons.

Eu choro e me chateio com os dias ruins, aqueles dias em que ele está tão agitado, tão acelerado, que não se concentra para fazer as coisinhas na escola e os deveres em casa. Não responde as minhas perguntas e não fixa o olhar. Parece estar em rotação mil. E está mesmo. É a tal da hiperatividade. Nesses dias, eu temo pelo futuro e questiono minha fé, minhas crenças, minha rotina com ele, meu papel de mãe.

Mas aí me lembro que chorar não adianta nada e já penso pra frente, no que eu posso fazer para melhorar… E, como dizia a minha avó, o que não tem remédio, remediado está. Se não for o tempo de ele fazer algumas coisas que outras crianças de 4 anos já fazem, não é, e pronto.

Tem dias que ele joga o lápis no chão e diz que não vai fazer o dever. E tem dias que ele faz tudo e até os deveres extras, as folhas avulsas que eu imprimo com atividades para ele e o Thiago (o meu outro filho, de 6 anos) fazerem. E entende o proposto e me abraça quando eu dou parabéns pelo trabalinho feito.

Domingo, fomos ao cinema e depois de muuuuito tempo, o Luca ficou a sessão inteira. Voou boa parte do tempo, subiu e desceu as escadarias do cinema sabe Deus quantas vezes, as pessoas olhavam, achavam um absurdo eu deixar uma criança correndo na escuridão do cinema com risco de cair. Nessas horas, a mãe é sempre julgada. É a mãe que não dá limite, que não se impõe….

De vez quando, ele parava e prestava atenção numa cena ou outra e ria junto com a plateia. Isso para mim é o máximo: ele entendeu a “piada” e riu. Eu não assistia ao filme. Assistia ao Luca assistindo ao filme. Na hora dos efeitos especiais, com o som muito alto, colocava as mãos nos ouvidos. O semblante é de dor. Olhava outra cena e empilhava as almofadas que a gente coloca no assento das crianças lá na frente, na primeira fileira. E assim foram quase duas horas de “Os Croods”.

Para mim, houve um ganho em tudo isso. Pelo menos, dessa vez ele não fez escândalo para sair, como costuma ser. Normalmente, eu saio com ele do cinema e o Thiago fica com outra mãe de um amiguinho – eu nunca vou ao cinema sozinha, porque sei que é grande a chance disso acontecer.

Ao sair da sala, ele veio correndo em minha direção e perguntei se tinha gostado. A resposta acabou comigo. Luca respondeu: “Mãe, consegui!”, com as duas mãozinhas fechadas, comemorando, olha fixo no meu olho, sorriso no rosto. E me abraçou. Foi um soco no estômago. Isso me deu a prova de que ele se esforça para ser “normal”. Me mostrou que ele tem noção de que a gente cria uma expectativa sobre o seu comportamento, que ele quer fazer o que se espera, mas simplesmente ainda não dá conta.

Ele não dá conta, nesse momento, de ficar duas horas sentado, vendo uma animação. Tenho raiva de mim mesma quando fico assim e esqueço que ele tem o seu tempo.

Esse “mãe, consegui” martelou na minha cabeça o resto da noite. Fui dormir 3h da manhã. Até que ponto ele tem consciência? O quanto ele absorve à sua volta, o que ele pensa, o que ele entende? Perguntas difíceis, com respostas que eu só posso imaginar. De vez em quando o Luca me dá pistas de que está mais presente do que eu posso supor, como dessa vez. De vez em quando levo um tapa na cara como esse, para me fazer acordar. Para me lembrar que o cérebro é um mistério, e que você não deve NUNCA subestimar o seu filho. Você conseguiu sim, Luca. E ainda vai conseguir muitas outras coisas na vida. Conte com a mamãe. Sempre.