Uma vez ouvi que crianças aprendem muito mais com bons exemplos vindos dos pais do que através de lições de moral, ou de imposições sem sentido. Assim, ao longo dos anos, fui procurando colocar isso em prática com a minha filha e agora percebo que colhemos bons frutos. Um aspecto, por exemplo, que sempre procurei desenvolver junto com ela é a busca incessante por construir uma rica bagagem cultural. Essa “riqueza” cultural é um maravilhoso cartão de visitas, que apresenta a Giovanna para o mundo e abre para ela muitas portas. No meu ponto de vista, a riqueza cultural, inclusive, vale muito mais do que a riqueza monetária, pois permite que as pessoas com as quais interagimos reconheçam-nos como alguém interessante, com quem é bom conversar e trocar ideias, além de ajudar a ativar nosso espírito curioso e inventivo, que é a principal fonte de felicidade e realização. A partir desse estado, tudo flui e o universo realmente conspira para que tenhamos o que merecemos, ou seja, conforto tanto físico quanto espiritual.

Pode parecer engraçado, mas sempre cuidei da minha filha, desde bebê, pensando em que tipo de pessoa ela seria quando envelhecesse. Educar alguém é um projeto de longo prazo, e temos que enxergar lá na frente, procurando auxiliá-la a construir uma vida plena de sentido, com liberdade e responsabilidade. E, durante esse percurso, aparecem pistas que nos indicam que estamos no caminho certo. Esse fim de semana, por exemplo, eu e ela fomos ao Memorial Minas Gerais, na Praça da Liberdade, numa visita técnica em que levei alunos da faculdade onde dou aula. Lá, havia uma exposição da artista Paola Rettore que registrava intervenções urbanas realizadas por ela em Belo Horizonte. As performances foram feitas a partir da construção de roupas-esculturas. Essas vestes exibidas questionavam, em sua maioria, relações de poder, trabalhando no limite do exagero, da ironia, da provocação e da poesia. Pelas ruas da cidade, a artista incorporou personagens que propunham reflexões sobre o a sociedade e o feminino, tais como a mulher Ciborgue, a mulher Esmalte, a mulher Anos 50 e Sofia, a mulher que dá diplomas. Essa última, a mulher que dá diplomas, inspirou a reflexão feita a seguir.

Na sala da exposição havia uma mesa, com vários diplomas e carimbos, e cada visitante podia ficar à vontade para se auto-outorgar um diploma em qualquer coisa que quisesse. Tanto eu quanto Giovanna fizemos os nossos diplomas simbólicos e ela mandou logo um “Diplomada em Jornalismo”. Achei graça e percebi que ela já se preocupa em organizar seus planos de vida. Essa experiência ficou ainda mais interessante porque, recentemente, muito se falou sobre a decadência da profissão de jornalista, pelo fato de não ser mais obrigatório o diploma para exercer a profissão. Percebi, depois, a ironia e o aprendizado que a situação continha. Sinceramente, num momento em que se enfraquece a relevância de mercado do diploma do jornalista, certos pais incorporariam a metáfora de tratores, fazendo ruir toda arquitetura dos singelos planos de uma menina que está apenas começando a vida. Mas eu não caí nessa armadilha, pois enxerguei a Gi do alto de seus 13 anos, num ritual em que ela concedeu-se um diploma fictício pelo fato de enxergar o exercício de suas habilidades, competências e interesses como fonte de felicidade e realização pessoal.

Tudo isso me fez pensar bastante sobre o que está por trás de um diploma. Eu, que assino tantos, como coordenadora e professora de ensino superior, nunca tinha parado pra pensar direito sobre eles, sobre o que simbolizam realmente. Chego à conclusão, então, de que diplomas nada mais são do que a manifestação concreta dos nossos esforços diários para realizar nossos sonhos, representam os papéis que escolhemos desempenhar na vida, são, enfim, pequenos milagres que registram a existência humana no planeta. Agora, vejo o valor que eles têm, não porque “certificam” que estamos aptos a fazer algo ou por terem assinaturas de autoridades, e sim por quererem dizer que todos nós temos a capacidade de sonhar e de transformar nossos sonhos em realidade. Há prova maior de sabedoria do que nos permitirmos colecionar muitos diplomas, simbólicos ou não, ao longo da nossa vida? É isso, precisamos ter a mente aberta o suficiente para buscarmos nossos “diplomas” no dia a dia, e incentivarmos nossos filhos a fazerem o mesmo! Ter uma coleção na medida em que o tempo passa nos transformará em seres humanos inteiros, alimentados de cultura e com vidas que valem à pena ser vividas, que nos motivam a aproveitar todos os dias de forma única. Vamos nos juntar, portanto, à corrente iniciada pela artista Paola Rettore e conceder a nós mesmos, e uns aos outros, o direito inalienável de expedir vários “diplomas” do que bem quisermos, referentes a tudo o que sonhamos, como desafios para alcançarmos tudo aquilo que desejamos. O que acham da ideia?

Para saber mais sobre Paola Rettore:
http://www.paolarettore.com
http://www.youtube.com/watch?v=cW2g1yPR81A