Há muitos pais preocupados ao descobrirem algumas não verdades de seus filhos. Eles questionam “por que você mentiu?” e se perguntam “por que meu filho mentiu?”. E na maior parte das vezes ficam sem respostas.

A mentira tem um aspecto cultural. Todo ser humano não falará a verdade sempre, pois ser sincero demais pode gerar situações desagradáveis. Por exemplo: você encontra com uma pessoa que acabou de sair do cabeleireiro com um corte horroroso, ela vira para você e fala “Você está vendo como o meu cabelo está maravilhoso?” A maior parte das pessoas diria: “Ehhhhh ficou legal!” com um sorriso amarelo, ou seja, você falou uma mentira, culturalmente permitida, mas não deixa de ser uma mentira. Porém, este tipo de mentira não vem muito ao caso deste post. Afinal, nestes casos os papais passam mais aperto com o excesso de sinceridade dos filhos. E é aí que a confusão aparece na cabecinha deles. Para exemplificar coloco abaixo um relato extraído de um atendimento de uma criança de cinco anos junto com a mãe, que autorizou a publicação.

“Minha mãe me pôs de castigo porque eu falei que foi meu irmão que desenhou no sofá branco da sala e ela descobriu que fui eu. Mas aí ela encontra com a vizinha que ela sempre fala que tem uma filha feia e na frente dela diz – Que menina mais linda! Por que ela pode mentir e eu não?”

O relato mostra exatamente o que passa na cabeça dos filhos. Porque inevitavelmente eles verão seus pais mentindo na maior naturalidade, sem nenhuma punição. E eles sempre que mentem são punidos.

Portanto, deve-se tomar o cuidado para que a mentira não esteja presente em sua casa. Ok, sei que é praticamente impossível, mas há muitas mentiras que podem ser banidas da vida de qualquer um. Como por exemplo, pedir para o filho falar que você não está para não atender um telefonema ou falar que está chegando na casa da vovó sendo que nem saiu de casa ainda, entre outras. Parecem inofensivas as “pequenas” mentiras, mas é a partir delas que a criança começa a desenvolver a habilidade para mentir.

A criança mente basicamente por três motivos:

1. Evitar uma punição: não há quem goste de ser castigado, então se a criança fez algo que sabe que desagradará seus pais ou responsáveis ela facilmente mentirá dizendo que foi outra pessoa para não ser punida. Neste caso os cuidadores devem conversar com a criança mostrando-a que ela errou duas
vezes. E estipular uma punição para cada erro. Além de ressaltar a importância de assumir seus erros. Os valores estão sendo “implantados” nesta época, então reforce sempre aquilo que achar que é importante para vida de seus filhos, como a importância da verdade e de assumir seus atos.

2. Ser aceito em seu meio: infelizmente hoje é muito comum você ver crianças e adolescentes falando mentira para serem aceitos por seus colegas. Já presenciei crianças falando com uma menina que ela não podia ser amiga deles porque ela não ia para Disney em todas as férias. E aí depois fiquei sabendo que uma das crianças também nunca tinha ido, mas mentia para poder ficar junto com o grupinho tido como o melhor da escola. Neste caso a percepção dos pais tem que ser mais aguçada, pois não é raro que eles demorem a descobrir a mentira e quando a descobrem devem ser extremamente sensíveis para saber como lidar com a situação. Este tipo de mentira normalmente gera outras mentiras, como por exemplo: estou doente, não quero ir a escola hoje. A criança que se sente rejeitada, como mecanismo de defesa, tem a necessidade de evitar aquela situação. E aí os pais devem conversar, conversar e conversar, sempre expondo que cada um é um e que ninguém é melhor do que ninguém.

3. Imitar seus responsáveis: o sujeito é produto do meio. Se a criança vê seus pais mentido todos os dias por qualquer motivo, achará isso certo e também o fará. Nesta situação, só há uma coisa a fazer: parar de mentir.

Inevitavelmente, seu filho vai lhe contar uma mentira e isso até tem um lado positivo que é a demonstração da capacidade de planejar, inventar, arquitetar um pensamento. É óbvio que deve-se sempre ensinar que mentir é errado. E, também, estar atento a duas coisas: se estiver em excesso a quantidade de mentiras deve-se procurar uma ajuda profissional (pediatra, psicólogo, professor ou pedagogo) e segundo, tomar cuidado para não confundir fantasia com mentira. Faz parte do desenvolvimento humano o fantasiar e este não pode de maneira alguma ser punido ou banido da vida de uma criança.

Enfim, o exemplo é a melhor “arma” contra a mentira. Seja o mais honesto, sincero, amigo, companheiro e verdadeiro com seus filhos e você terá a confiança deles para serem o que realmente são e poderem lhe falar tudo sem medo de ter uma punição descabida ou um julgamento desnecessário.