Ela me chama de Porquinho, ela tem o abraço mais gostoso do mundo e inventa nomes para todos os seus bichinhos e briga e perde a paciência e gosta e desgosta de uva de um jeito que ninguém entende.

Ela diz que ainda não aprendeu e pede pra gente ensinar, se cobra demais e ama os próprios cachinhos e fala sozinha andando pela casa e agitando as mãos e dizendo histórias que eu jamais saberia contar.
Ela escreve cartas para os amigos sem ainda saber escrever e decora falas de filmes e imita vozes e pede carinho nas axilas e grita o grito mais agudo e ri o riso mais gostoso e quer ter sempre a palavra final.

Ela me ensina todo dia que ser pai é ter paciência, que ser pai é errar e ser amado, que ser pai é ser presente mesmo de longe, que ser pai é ter a certeza, depois do grito, de que todo grito é desperdício e que bom mesmo seriam o abraço e o beijo e o sonho.

Mas ela é assim e eu sou assado. E ela ainda vai ser tudo quando eu sou cada vez menos. Ela aprende o que eu esqueço, ela acredita onde eu duvido, ela enxerga onde eu já me perdi de vista.

Ela é o começo de uma Sophia, de toda Sophia, de muitas Sophias e eu sou alguém que olha e que se confunde todo entre ser pai e querer ficar olhando e curtindo o milagre de vê-la se transformar em si mesma.