Você, assim como eu, já deve ter presenciado várias situações em que pais retiram seus filhos de perto, alegando que a conversa é para adultos. Essa atitude, desde criança, sempre me chamou atenção, pois na minha casa isso não acontecia. E até hoje fico surpresa com a frequência que ainda ocorre essa situação.

Após muita observação e reflexão, concluí que o pânico que muitos adultos têm de conversar abertamente com as crianças é simplesmente porque eles muitas vezes não são capazes de expor e de lidar com suas próprias fraquezas e medos, e acreditam que excluindo a criança da conversa ou inventando qualquer desculpa, ela se dará por satisfeita.

Sabemos que as crianças são antenadas, conseguem perceber o que geralmente está acontecendo e quando tentam enganá-las. Nessas situações, uma conversa franca e adaptada à capacidade cognitiva e emocional da criança seria uma solução, mas quando evitada, torna-se uma avalanche de consequências que podem perdurar anos.

Muitos adultos costumam menosprezar a capacidade de entendimento das crianças. E acham que “mentirinhas” não fazem mal algum. Mas desde bebê somos capazes de perceber, acolher e armazenar tudo o que ocorre ao nosso redor. Qualquer coisa que o adulto diz que não é verdadeiro, a criança capta e reage de acordo com o que lhe foi ensinado. Se for hábito da família mentir, a criança vai aprender que isso é correto e que pode agir dessa forma sempre que julgar necessário.

Outra consequência negativa é que a criança fica livre para pensar e imaginar o que bem entender – e aí são criados monstros gigantes em suas cabeças. Ensinar os filhos a lidar com os reais problemas é muito mais saudável e fácil do que tratar algo que foi fantasiado e tornou-se verdade na psique da criança.

A verdade deve ser dita em qualquer circunstância e em qualquer idade. É claro que é preciso adaptar o problema à capacidade de entendimento da criança, mas reforço que nunca devemos menosprezar essa capacidade. A criança lhe mostrará até que ponto ela consegue entender. Não a deixe sem resposta, nem as invente. Dê liberdade para que a criança chegue até você para conversar sobre qualquer assunto. Não a force a nada, mas também não a ignore.

Não esconda de seu filho seus sentimentos, medos, angústias, problemas e fraquezas. Afinal, a vida é feita tanto de coisas boas como ruins. E a criança aprenderá a lidar com tudo isso a partir dos exemplos dos pais. Ou seja, se os pais não sabem lidar com as pedras no caminho, ela compreenderá que é assim que se lida com os problemas e fugirá também. Se os pais usam a mentira para tentar evitar um sofrimento para a criança ou para si, ela também terá o direito de mentir para esconder algo de errado que fez. E aí, não vale reclamar quando, na adolescência, seu filho começar a dizer que está saindo para um lugar e for para outro, se era justamente isto que você dizia a ele quando criança.

Portanto, não caiam na cilada de acreditar que o caminho da mentira é mais fácil e melhor. Ele pode ser fácil de imediato, mas as sequelas podem ser eternas.