“Ele vem chegando

e feliz vou esperando
a espera é difícil
mas eu espero sonhando…”

(Zazueira – Jorge Bem Jor – adaptado)


Não sei se é impressão, mas sinto como se o exame de ultrassom tivesse evoluído uns 150% desde a gestação da minha primogênita. E parece que a emoção a cada ultrassonografia tem seguido na mesma proporção também. Incrível como as mãos, pés, rosto, os pulinhos, o abrir dos olhos, o dedo na boca e tantos outros detalhes do bebê parecem tão mais nítidos naquela telinha do que há cinco anos, quando acompanhei o mesmo processo com a Sarinha.

Seriado da vida real que acompanhamos mês a mês, o exame nos leva a pensar o quanto é surreal saber que existe outra pessoa dentro da gente. Outro ser, que está ligado por um cordão, meio vagando, meio apertado, no útero materno, no ventre, na barriga da gente mesmo. Ele não é uma parte de mim, ele está em mim, aqui dentro, até o dia em que alguém cortar o tal cordão e pluft – aí já seremos dois de maneira bem concreta.

Dizem que o exame 4D mostra cada detalhe de forma ainda mais real e é super hiper ultra emocionante. Aposto que sim. Ultrassom em HD, pra assistir comendo pipoca, gravar no CD e assistir novamente, depois que o bebê nascer, comparando se fomos ou não enganados. Estive pronta pra passar por essa etapa e levar junto a pequena, pensando em um momento especial, no qual ela pudesse ver o irmãozinho da forma “mais verdadeira” possível.

Solicitei o pedido com a obstetra, verifiquei a agenda. É necessário que o exame seja realizado antes de se completar 32 semana de gestação. Eu, com 30 semanas, me apressei em organizar tudo para vivenciar esse momento em família e não deixar passar batido.

Acontece que, no fim de semana anterior, algo aconteceu. Fizemos um ensaio fotográfico em família (com a Duorama, nossos queridos que têm acompanhado a gestação do Raul) que me fez refletir bastante. Misturando-se aos pensamentos, lá estavam elas: as expectativas, essas sensações que nos rondam e deixam ansiosas, alcançando até mesmo as mais experientes mamães, já com muitos filhos criados.

Neste ensaio, assim como nos demais, trabalhamos as expectativas de modo positivo, especialmente com a pequena, de forma que ela pudesse imaginar como seria o irmãozinho. A cada foto registrada, era uma história contada, incentivando-a a bem recepcionar o novo membro da família – algo que temos tentado praticar em todas as etapas possíveis do dia a dia. Em determinado momento, ela tentava ouvir pela barriga o irmão; em outro, lemos o livrinho sobre o nome Raul; em outro ainda, acariciava e dava beijinhos – o que será que ele está fazendo, Sarinha? Como será o rostinho dele? Será que tem cabelo? Vamos conversar com ele? E a brincadeira ia fluindo, assim como a cumplicidade com os papais, que curtiram esses registros e pararam pra pensar no propósito do exame que estava marcado para a semana seguinte.

Se tem estado tudo no campo da imaginação, a verdade é que desistimos de meter a realidade nessa história, ainda que nem seja uma realidade tão fiel assim. Dá pra continuar só imaginando como será esse pequeno? E torcendo para tudo dar certo? E continuar chamando “vem, Raul. Vem, que estamos esperando você com todo o amor, todo o carinho. Vem, que queremos conhecê-lo do jeitinho que você é, sem interferências digitais. Vem brincar com a gente, Raul. Vem conhecer esse mundo aqui fora”?

Cancelei o exame. Decidi investir mais na imaginação. Ok, talvez daqui a um tempo, eu me arrependa de ter pulado a etapa 4D. Afinal, agora o prazo já passou e não tem como voltar atrás. E não condeno quem decide fazer o exame e vai até o fim, longe disso. Mas por hora, vou mantendo as expectativas por aqui de uma forma mais subjetiva.

Porque sim, a espera é difícil. Mas prefiro esperar sonhando :)