Um pouco antes de começar a escrever este texto, desci até a portaria do meu consultório e quando retornei para o elevador, entrou uma mãe com um bebê de poucos meses que começou a chorar. A mãe ficou tão incomodada que começou a suar e pedir desculpas para todos que estavam ali. Mais do que depressa, falei que não tinha que pedir desculpas, que a criança tem todo o direito de chorar quando quiser, pois é a única maneira que ela tem de reivindicar o que quer. A mãe se assustou com minha atitude e disse que ninguém fala assim, que todo lugar que ela vai as pessoas só viram a cara ou a mandam calar a criança.

Esse tipo de atitude vem me tirando o sossego há algum tempo, pois venho observando o quanto uma grande parte da sociedade está sendo cruel com os pais e com as crianças. Eles desejam que as crianças ajam como mini-adultos e não podem fazer absolutamente nada que os incomode. Então quando estão em um local e a criança abre o berreiro querendo algo, logo olham com cara repreensiva para os pais. Quando estão em uma pracinha e vêem uma criança chorando porque não quer emprestar o brinquedo para o coleguinha, lá está mais um olhar torto e cheio de julgamento. Quando estão em um avião, ônibus ou até no elevador e uma criança começa a chorar, reclamam sem parar. Fico pensando se essas pessoas nunca foram crianças, ou se nunca passaram por nenhuma situação assim com seus filhos ou netos. 
Concordo que criança sem educação é um péssimo exemplo. Mas não é porque a criança está fazendo uma pirraça, ou porque naquele momento ela não quer emprestar o seu brinquedo, ou porque ela chora quando algo não está bom, que ela é sem educação. Muito pelo contrário, isso é o natural da criança e será com essas situações que ela começará a entender que o mundo tem regras e que não se consegue tudo do jeito e no momento que se quer. E mesmo as mais grandinhas, que já têm um pouco do domínio da linguagem, terão dias e/ou situações em que não conseguirão se expressar e que o choro será a única saída.


Quantas vezes nós, adultos, não conseguimos explicar o que nos angustia e abrimos a boca a chorar? E quanto esse choro nos alivia? Após uma descarga de lágrimas, parece que as ideias ficam mais claras e até conseguimos achar as palavras para descrever o que estávamos sentindo.

A criança, quando chora, pede acolhimento. Não estou aconselhando a passar a mão na cabeça da criança e fazer todas as suas vontades. Mas devemos acolher a sua dor e dar palavras, nomear o seu choro. Por exemplo, vocês estão na padaria numa segunda-feira e seu filho lhe pede um chocolate,  você não vai dar porque conforme o combinado da família, a criança só pode comer chocolate nos finais de semana. Pronto, ele abre aquele berreiro que nada o acalma. E aí, você compra o chocolate? Não! Você o pega no colo, sai de perto de toda a plateia e fala carinhosamente que você entende o quanto ele quer e gosta de chocolate, mas que o combinado é só nos finais de semana. Provavelmente ele ainda vai continuar chorando incontrolavelmente. Então você fala que o que ele está sentindo se chama frustração e que ele tem direito de ficar triste e chateado, mas que não há necessidade de tanto choro.

Para algumas crianças, essa explicação já será suficiente e o choro será cessado. Para outras, será preciso  um acolhimento ainda maior, pois há crianças que quando descobrem o que estão sentindo parece que a dor aumenta e choram ainda mais. Mas com o tempo, muito carinho, acolhimento e paciência, elas vão se acalmando e voltam a sorrir. Agindo com carinho e ensinando para a criança o que está acontecendo, os pais passarão para seus filhos segurança e confiabilidade. E essas situações de birra e choro incessante aos poucos vão sendo extintas e passam a aparecer as argumentações.

Criança pode e deve chorar, pois o choro é o primeiro modo dela se expressar e será através dele que ela aprenderá sobre o que está sentindo, com isso poderá ter a oportunidade de aprender a se expressar de outras maneiras. Sendo assim, quando virem uma criança chorando, fazendo birra, não façam cara feia para os pais, pois tenham a certeza que eles estão mais envergonhados e incomodados do que vocês. A maioria dos pais quer que seus filhos ajam com educação, mas criança não vem com manual. Para serem educadas, elas precisam experimentar o mundo. Viver significa lidar com dores, angústias, medos, alegrias, entusiasmo etc. E até elas terem o discernimento de como lidar
com cada um desses sentimentos, haverá muito choro.