Foto: Patrícia de Sá

“Menino, vai dormir, se não você não cresce!” Alguém ouviu essa frase quando criança? Eu costumava escutar, assim como meus irmãos. Sempre achei que fosse apenas uma maneira intimidadora para que eu deitasse e acordasse cedo sem reclamações.

A Paróquia Nossa Senhora Rainha ficou recheada de pais
sedentos para entender como o sono afeta a vida das crianças

Acontece que o tal dormir cedo, de fato faz muita diferença no crescimento e desenvolvimento das crianças, segundo Dr. Belisário, psiquiatra pediátrico, que ministrou importante palestra ontem à noite, à convite da Dra Filó, na Paróquia Nossa Senhora Rainha, no Belvedere.


Fui conferir e me impressionou a quantidade de mães e pais reunidos. Tinha gente sentada no chão, nas escadas, nas janelas. Um sem número de pessoas interessadas nesse assunto que tem afetado a maioria das famílias de hoje. De fato, nossos hábitos mudaram e ir para a cama antes das 21h não é uma realidade muito comum nas casas brasileiras.
Acontece, que isso tem influenciado diretamente o futuro das crianças, que estão ficando mais baixas, mais desatentas, mais ansiosas e com diferentes transtornos, enchendo os consultórios. Mas nem sempre foi assim. Dr. Belisário resgatou da lembrança de muitos pais que ali estavam a famosa propaganda dos cobertores Parahyba. Muitos podem não ter assistido na época (eu nem era nascida ainda!). Mas a música quase todos conhecem: “tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar…” 
E sabe que horas era exibida essa propaganda na TV? Às sete horas da noite, minha gente! Nesse horário, muitas vezes eu nem saí do trabalho ainda e minha filha chegou há pouco tempo em casa.

É possível mudar esses hábitos?
Não é fácil. Segundo o psiquiatra, para mudar a maneira de dormir de um bebê de três meses, leva-se dois dias. De seis meses, quatro dias. Já uma criança de sete anos, por exemplo, vai demorar três meses para aceitar dormir de forma diferente. E será sob muito protesto. Porque afinal de contas, por que só ela tem que dormir cedo, enquanto as colegas não têm essa regra em casa? E como ela vai participar das conversas no recreio se não está assistindo ao Big Brother…!?

As mães também sofrem com essa pressão social. Se nos ausentamos um pouco mais cedo de algum programa social para colocar a prole na cama: mas ela jáááá vai dormir? E quando o telefone toca em casa, às 21h30, e a gente atende falando com um tom mais baixo, porque a casa está adormecendo – “êta povo que dorme cedo nessa casa!”. Acaba gerando estranhamento, não tem jeito.

Mas por mais complicado que seja, parece que a solução passa por aí. Para mudar os hábitos de sono de uma criança, é importante mudar os hábitos da família. Ela não vai aceitar dormir cedo se perceber toda a casa funcionando, luzes acesas, TV ligada e só ela tendo que se deitar. Portanto, a orientação do psiquiatra, nesses casos, é uma só: ler histórias, preparar o ambiente e desligar as luzes da casa. Sim, todas as luzes.

E a mudança de hábitos passa até mesmo pelo projeto de iluminação dos apartamentos, especialmente nas salas e nos quartos. Nada de luzes brancas, por favor! Uma casa precisa de luzes amarelas, que relaxam e auxiliam na chegada do sono. Segundo Dr. Belisário, a luz branca emite uma onda azul que atua diretamente nas mitocôndrias da nossa retina, inibindo o hormônio do sono, a melatonina.

E é a mesma luz que sai dos aparelhos eletrônicos. Celular e iPad antes de dormir, nas palavras do psiquiatra, é uma desgraça. Isso inclui também os pais. O whatsapp, que não para de funcionar mesmo de madrugada, é um grande vilão, despertando as pessoas. Ainda que você durma depois de ler uma mensagem, certamente você dormiria melhor se não tivesse lido. Acordar de madrugada e “dar uma checada” só prejudica o sono que deveria vir depois. E o efeito de aguardar a resposta de alguém no aplicativo age no mesmo lugar, dentro do cérebro, em que a maconha e a cocaína atuam. Daí as insônias, as ansiedades. Confesso que me impressionou tudo que foi dito ali, com tanta explicação científica.

Vou tentar esclarecer de uma forma simples (perdoem-me se eu não me aprofundar nas explicações, mas deixo para o vídeo que deve ser lançado pela paróquia em breve e no qual o psiquiatra tem todo o repertório sobre o assunto): as crianças precisam dormir cedo por um simples motivo: o hormônio do crescimento age sempre às 00h30 em quase todas as pessoas. Mas atua no quarto estágio do sono. Desta forma, se a criança vai para a cama às 22h, 23h, o hormônio terá muito menos tempo de atuação, prejudicando o seu crescimento.

O psiquiatra também exibiu imagens do cérebro de crianças que dormiram cedo e outras que dormiram tarde antes de uma prova de matemática. Os primeiros têm várias áreas do cérebro destacadas, em atividade, e os segundos, uma parte pequena. Possivelmente, os que dormiram mal vão se lembrar menos do que estudaram do que a outra criança.

Aqueles meninos e meninas que adquirirem um bom hábito de sono desde cedo, vão se tornar adultos com menos propensão de ter outras doenças, como o Alzheimer, que tem afetado um número cada vez maior de pessoas. Segundo o psiquiatra, apenas duas coisas realmente retardam essa doença: exercícios físicos e sono. Quanto mais, melhor. Aliás, repetiu-se infinitamente na palestra o quanto os exercícios físicos fazem diferença para o sono das crianças. Uma das boas coisas que os pais podem fazer pelos filhos é colocá-los para participar de esportes desde cedo. “Criança que faz exercício antes de dormir, dorme muito melhor”, insistiu muito o psiquiatra na palestra.

O encontro seguiu com muitas perguntas dos pais, ansiosos em entender como corrigir problemas, muitos também querendo enxergar melhor a relação do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) com a falta de sono. Dr. Belisário frisou sobre a quantidade de prescrição de ritalina estar diretamente ligada à má qualidade de sono das crianças.

Ao final, voltei para casa com o marido pensando em estratégias para melhorar a qualidade de sono da nossa família. Trocar as lâmpadas, incentivar ainda mais o esporte, e, passando pelo que já apoiamos nessa praça – assumir ainda mais a família como nossa mais importante tarefa. Trabalhamos como loucos e esquecemos que não estamos numa corrida, estamos com uma missão: fazer da nossa casa o melhor lugar pra se viver. Fazer da nossa família um ninho de cuidado que permita que crianças felizes tornem-se adultos seguros, realizados e saudáveis – física e psicologicamente.

A gente consegue, vai. Vamos seguir caminhando :)