É engraçado como tudo o que nos cerca é influenciado pelos nossos referenciais. O tempo, por exemplo, é muito relativo. Um minuto pra quem está medindo a temperatura do filho febril parece uma eternidade, não passa nunca. Este mesmo minuto se for ao chuveiro ou curtindo algum lazer passa muito rapidamente, nem o vemos passar. O mesmo acontece com a distância, a temperatura, os cheiros e sons… A cada nova experiência, novas percepções da mesmíssima referência. Quando damos por ver, o que foi já não é. E foi assim que, sem eu bem entender, num dia minha primogênita era o meu bebezinho, e no seguinte uma moça enorme, quase uma adolescente.

Me lembro bem daquela noite em que minha bonequinha dormiu abraçadinha a mim, tão frágil e indefesa aos meus olhos. Lembro de analisar seu corpinho e pensar: “que dedinhos pequeninos e perfeitinhos”. Beijei-os com ternura. E, de repente, quis o destino que algumas horas depois eu conhecesse um novo amor, aquele que veio reestabelecer a ordem e trazer um novo sentido. E novos dedinhos, pequenininhos e perfeitinhos num outro corpinho verdadeiramente frágil e indefeso. Foi tudo muito, muito rápido. Quando dei por mim tudo já tinha acontecido.

Como num passe de mágica, ali estava a minha super menina. Meu Deus, foi tudo tão intenso que eu não continha minhas lágrimas. Primeiramente, pela relevância da ocasião. Não há cena mais tenra na maternidade do que a de presenciar o primeiro encontro de seus dois rebentos. A carinha alegre dela não deixava dúvidas: nosso caçula havia chegado pra completar nossa felicidade. E pra mudar o seu mundinho. Porque no meio daquele turbilhão de emoções havia claramente um segundo motivo pro meu choro, e pro meu estranhamento. Havia um novo olhar, uma nova referência: eis minha gigante e meu habitante de Lilliput. Suas mãos a tocar as do irmão deixavam claro que ela não mais era um bebê. Mas como, se ainda hoje ela estava no meu colo, em meus braços? Estaria eu presenciando uma cena de Alice no país das maravilhas? Quem foi que deu pra minha neném um bolinho decorado com “coma-me”, daqueles que trasnformam Alice em um ser enoooorme? Porque só isto poderia explicar sua transformação agora tão nítida. Há de existir em algum lugar por perto uma garrafinha “beba-me” pra trazer de volta a minha menininha pequenininha. Tinha de haver. 

E de fato havia. Passados 6 meses daquela tarde em que meus filhos se conheceram, pude presenciar vários momentos em que meu primeiro bebê se fez presente. Pude enxergar em muitos momentos que ainda havia, dentro daquela menina grande, a necessidade de ser apenas o nosso bebê. Foi preciso ser muito sábios para conseguir reconhecer suas limitações, suas demandas, seus momentos menina e seus momentos mocinha. Precisamos por exemplo permitir àquela menina enorme ser um super bebezão que enchia as fraldas, respeitando o seu tempo para amadurecer para o desfralde. O mesmo se deu com a chupeta, esta ainda uma luta presente. Mas houve também a confirmação de que uma nova fase crescidinha veio pra ficar: sua responsabilidade para com o irmão, a dedicação em nos auxiliar nos cuidados com ele, as novas conquistas pessoais como o falar mais elaborado e as roupas de novos tamanhos. Novos desafios vencidos facilmente a cada novo dia. Tudo deixava claro que sim, o tempo havia de fato passado, e levado com ele a pequeninice da nossa primogênita, deixando pra trás uma garotinha e os encantos de uma nova fase de vida. Foi aí que percebi que todos os dias são dias de dar adeus. Meus filhos de hoje deixarão de existir bem diante dos meus olhos, e novos filhos me surgem a cada novo amanhecer. 
Me pego então agora embalando meus pensamentos nestas divagações e preparando espírito, mente e coração para o próximo desafio: aceitar que em breve precisarei me despedir também de um outro bebê, o qual, tal qual a primeira, passará a existir apenas em minhas doces lembranças. Já imagino o quão difícil será pra mim, e até tento me enganar com um “vai demorar, não se preocupe”. Mas bem sei que será mais rápido do que eu gostaria. Me resta, pois, colecionar até lá as suas gargalhadas, os olhares trocados no afago dos seios, e todos os momentos felizes que agora temos a três. São eles que hão enfim de me aquecer a alma quando a hora chegar.