Algumas das perguntas que eu mais ouço no consultório, de pais com filhos em diferentes idades, são “até onde meu filho entende o que eu estou falando?”, “será que ele tem idade para entender isso?”. Nunca subestime a capacidade de entendimento e sensibilidade de uma criança. Em qualquer idade, a criança é capaz de sentir que algo não está bem com seus pais. Assim como de perceber, e entender, o quanto é amada e querida.

Até os dois anos de idade, período em que há uma grande melhora da verbalização e se torna mais fácil compreendê-las, as crianças se comunicam através do choro, dos gestos (apontam, por exemplo) e do comportamento (mordem, batem, modificam o sono e o apetite etc). Então os pais devem ficar bastante atentos aos seus comportamentos, pois serão os indicativos de como a criança se sente e se comunica. Mas, mesmo nesta idade, é de extrema importância que os pais se comuniquem verbalmente com a criança, inclusive nomeando seus sentimentos. A criança gosta e precisa saber o que está acontecendo com ela e com o mundo ao seu redor (pai, mãe, irmãos, avós, tios, primos, cuidadores). Então, caso um dia você esteja chateado e ao chegar em casa perceba que a criança ficou mais agitada, comeu mais ou menos, não consegue dormir, pegue-a no colo e diga “olha, o papai/mamãe hoje está chateado(a) com …, mas já vou resolver, pode ficar tranquila”. Se a criança sentir que o cuidador está sendo sincero, ela irá se acalmar, pois se sentirá segura. Se ninguém contar a ela o que está acontecendo, ela criará mil monstros em sua cabeça.

Com as crianças maiores de dois anos, a comunicação se facilita, uma vez que elas expressam suas dúvidas e percepções. Geralmente, nesse momento, a maioria dos pais entra em pânico, temendo “contar mais do que deveriam”. Caso aconteça de a família estar com algum problema e você ser questionando quanto a isto, primeiramente, fale a verdade. Explique o básico do problema e aguarde a reação da criança. Se ela se satisfizer com aquela resposta, missão cumprida, não há necessidade de se aprofundar no assunto. Mas se ela ainda insistir no assunto, isso significa que ela realmente precisa saber mais para se sentir segura. A sugestão é ir aprofundando aos poucos, a própria criança irá lhe indicar até onde ela quer saber. Não é uma tarefa fácil, mas, quando os pais conhecem bem seus filhos, são capazes de perceber com um olhar, um gesto, um sorriso, que eles entenderam o que está acontecendo.

Dependendo da natureza do problema, a criança poderá ficar aliviada ou preocupada. O importante nesse momento é permitir que ela se expresse. As crianças precisam viver se sentindo seguras para enfrentar qualquer adversidade e não livres de problemas. Essa conversa vale para os probleminhas cotidianos mais simples, como a falta de um item que demande uma visita ao supermercado, como até mesmo, uma doença grave na família, uma mudança de cidade, um caso de morte ou divórcio.

Não tire de seus filhos a oportunidade de aprender a lidar com as adversidades. Se os pais os acolherem, sendo sinceros, orientando-os, sem colocá-los numa redoma, eles se tornarão mais maduros e seguros. Passarão por problemas com mais leveza e, consequentemente, terão uma capacidade maior de encontrar soluções mais eficazes para suas dificuldades. Então, vamos viver a vida com mais sinceridade e com menos medo dos problemas e do diálogo.