“Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros
em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz…
Examine cada caminho com muito cuidado e deliberação.
Tente-o muitas vezes, tanto quanto julgar necessário.
Só então pergunte a você mesmo, sozinho, uma coisa…
Este caminho tem coração?
Se tem, o caminho é bom,
se não tem, ele não lhe serve.” 
Carlos Castañeda

Primeiro somos um. Daí um tempo, optamos por estar em dois. E, seja lá se por decisão ou por surpresa – ou ambos misturados – nos tornamos três (ou mais…). E quando um novo humano chega numa relação, surge a exigência de renovar a comunicação.

Quando meu primeiro filho chegou, senti que eu tinha mudado de estado da matéria – de sólida para fluida -, e todas as certezas que tinha caíram por terra, gerando em mim uma vontade de estar totalmente aberta a esse universo em forma de bebê que estava ali na minha frente.

Que caminhos tomar para que eu acolhesse esse ser e ao mesmo tempo pudesse ser bem vinda no universo dele? A única resposta que escutei como brisa suave partindo de dentro de mim pode ser traduzida no trecho do Carlos Castañeda: “Este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom, se não tem, ele não lhe serve.”

Essa assertiva está em sintonia com a proposta de Marshall  Rosenberg*, que delineia a Comunicação Não-violenta (CNV) como uma comunicação “do fundo do coração”. Assim, estava ligado em mim o sentimento por meu filho e a base na qual eu sustentaria minha relação com ele.

A CNV não foi criada pensando na relação pais/mães e seus filhos. Foi criada pensando nas relações entre humanos. Ela é tão simples e ao mesmo tempo tão complexa, que fico refletindo, com esperança, que crianças criadas com uma comunicação não-violenta serão adultos que terão experiência basilar para se comunicarem não-violentamente também. E como isso pode ser transformador.

A partir de minhas vivências, estudos e reflexões pessoais, percebo que uma comunicação autêntica, baseada em não-violência, respeito, ligação afetiva e visão de mútuo crescimento é primordial para a formação de seres humanos melhores e mais integrados com um mundo cada vez mais desafiador. É desse lugar que escrevo aqui. Essa é a proposta de reflexão que desejo oferecer aos leitores do Na pracinha e periodicamente estarei escrevendo aqui sobre essa temática.

Hoje, nos inserimos em um mundo onde é bastante presente a naturalização da violência, muitas vezes em contornos bem sutis. Espero que possamos juntos construir um caminho que esteja em sintonia com uma cultura em que a tônica da paz possa modificar gerações.

*Pra quem não conhece Marshall Rosenberg, ele é um estudioso da comunicação humana, especialmente em contextos de conflitos, e autor do livro “Comunicação Não-violenta”, Editora Ágora.

Gostaria de deixar aqui um convite: em setembro, estarei falando sobre essa temática no INODUCAR,
Congresso on line, gratuito e com inscrições abertas no link: www.inoducar.com.br/sandrarodrigues/