O menino no alto árvore era eu.
Suado e moreno, escondia o riso do pegador que passava do outro lado da rua e acabava por sair correndo atrás de outro moleque mal agachado atrás de um Opala.
Se eu corresse pro pique chegava antes dele? Esperava mais pra ele correr mais longe? Ficava escondido até, suprema humilhação, o pegador desistir e eu sair dali supremo e inencontrável?
Resolvi que ficava. Um morcego dava um rasante, um gato dava um susto, o pegador dava pena. Só faltava que me achasse para ganhar o jogo. Era duelo de dois amigos, imprevisível.
Ele então se encostou na árvore, aquela mesma folhosa que era meu bunker. De cima eu via o topo vencido de sua cabeça. Aí me bateu a ideia, moleque como nós todos. Fiz xixi de lá de cima, acertou um pouco nele. Aproveitei o susto e a raiva pra chegar no pique e ganhar o jogo.
Perdi o amigo, mas só um pouco, no máximo um dia ou dois. Paguei minhas desculpas com duas bolinhas de gude e uma figurinha que ele ainda não tinha no álbum.
Coisa de criança, enfim. Errar com o amigo, sem medo, por saber que perdão é palavra infantil. E que rancor é presente feio, que a gente só guarda depois que cresce.