Muitas vezes senti orgulho de mim mesma por ter tido um raciocínio rápido em determinadas situações. Numa aula, por exemplo, o professor começava a introduzir o assunto e eu já fazia inferências de onde ele queria chegar, já sintetizava o tema geral na minha cabeça e considerava meu entendimento completo. Quando os colegas começavam a perguntar, tirar dúvidas etc, eu me irritava. Primeiro, porque achava muitas perguntas bobas, que ele já tinha falado sobre elas na sua preleção; depois, quando chegavam perguntas que fugiam do meu escopo de pensamento, pensava que fugiam ao tema e eram desnecessárias. Tudo fruto de um pensamento cartesiano limitado e fechado que desenvolvi durante muitos anos…
Porém, algumas coisas foram acontecendo, muitos cristais de certeza quebrando e fui aprendendo a ver o mundo com um olhar para sua complexidade e diversidade. Mas tudo se ampliou, mesmo, depois que eu tive um filho. Nada foi mais desafiante para mim em minhas certezas do que ter um filho, porque quando tudo está estabilizado e seguro, vem uma novidade e um novo desafio.
Talvez muitos de vocês, ao lerem esse texto, tenham a mesma sensação ao lidar com os filhos. É incrível a capacidade das crianças de nos desafiarem em nossas crenças e conhecimentos e nos apontarem novos caminhos para solucionarmos velhas questões em nossa relação com eles, de uma forma espontânea e, por vezes, barulhenta.
O fato é que não há fórmulas mágicas, nem receitas de bolo perfeitas na condução da aventura de se relacionar com um filho. Mas há possibilidades mais amplas que podem nos servir de guias, de parâmetros gerais na condução da vida nova que surge para todos.
O caminho que acredito ser mais favorável e conectado com a experiência de amor que se traduz em ter um filho é o caminho da comunicação não-violenta (CNV), com laços fortes de afeto, cuidado e alegria. Já conhecia a CNV antes de nascerem meus filhos, mas depois deles e de todos os desafios consequentes, decidi aprimorar cada vez mais no seu estudo e prática.
De maneira muito simples, uma comunicação não-violenta pode ser construída a partir de quatro etapas elencadas por Marshall Rosemberg diante da necessidade de comunicar algo a alguém: observar sem julgamento; identificar nossos sentimentos; compreender nossas necessidades e formular nosso pedido. Muito simples de escrever, muito complexo de vivenciar, muito gratificante ao se experienciar.
É uma comunicação que nos aproximará de forma intensa de nossos filhos, criará canais de confiança e compartilhamento e proporcionará o aprendizado pela experiência a eles de que existe uma forma de comunicar o que se sente, necessita e espera sem partir para a agressividade ou o retraimento. E não se surpreendam se, em muitos casos, as crianças forem verdadeiras mestras ao comunicar verdadeiramente seus sentimentos e necessidades, porque em geral, essa é a linguagem deles que, infelizmente em muitos momentos, nós, adultos, os ensinamos a calar, fingir, esconder…
A CNV é um caminho que não busca respostas rápidas. É lento e reflexivo, de muitos esforços e respostas positivas, mas também de muito autoquestionamento e autoperdão.
Lento e reflexivo, porque se constrói na medida em que o vivemos, observamos os resultados e pensamos outras possibilidades mais satisfatórias para todos. Autoquestionamento porque nos deparamos o tempo todo com partes de nós mesmos que nem sabíamos que existiam. E de autoperdão porque erramos e erraremos em muitos momentos, mas a possibilidade de se desculpar e corrigir o erro poderá ser um norte a nos orientar.
Para as mães que quiserem conhecer e se desenvolver no caminho da Comunicação não-violenta, em breve iniciarei uma Roda Materna on-line com essa temática. Sintam-se convidadas e entrem em contato pelo emaildasandra2@gmail.com.