Os olhos de Lívia estavam cheios d’água. Sentia um choro poderoso e lento subindo pela garganta.

As luzes brilhantes da casa, os tios falando alto, os pais dançando no meio da sala, a música, nada poderia diminuir a dor que sentia naquele momento.

Seu pijama de flanela, suas pantufas velhas e seu coelho de pelúcia eram seus companheiros de aventura. Saíra da cama pé ante pé, sentindo-se esperta, independente e agora praticamente soluçava enquanto via sua tia colocando os presentes debaixo da árvore e perguntando indiferente:

– Esse aqui é o seu pra Lívia, né, Dimas?

Descobria ali, sem nenhuma sutileza, como um escorregão na beira da piscina, que Papai Noel não existia.

– Psssst! Lívia, vem cá.

Olhou pra trás e viu o irmão mais velho que acenava freneticamente do corredor. Virou-se pra ele correndo, abraçou-o e soltou o choro que a estrangulava. Soluçou vencida, a boca apertada contra o coelho. Tinha raiva dos pais, raiva da família pela mentira que contavam.

O irmão então olhou pra ela e perguntou:

– Você não sabia?

Lívia fez que não com a cabeça.

– Eu descobri ano passado. Um colega de sala riu de mim porque eu disse que Papai Noel era de verdade e aí todos me trataram como um bobo. Fiquei com raiva também.

– Por que eles fazem isso? Por que falam mentira?

– Não sei. Talvez eles comecem a crescer e fiquem tão preocupados com outras coisas que acabam esquecendo que um dia já acreditaram. Mas sabe o que eu acho?

– O quê? – perguntou Lívia esfregando os olhos no rosto do coelhinho de pelúcia.

– Eu acho que Papai Noel existe, sim, e que eles simplesmente escolhem não ver. Eles compram presentes e inventam histórias porque querem ser mais importantes que ele, porque querem se sentir maiores do que tudo. Mas não são! E eu tenho quase certeza de que quando eles estiverem bem velhinhos, sem forças pra fazer isso tudo, vão acordar e achar um presente debaixo da árvore ou da janela e nem vão saber de quem é. E aí, talvez nesse dia, eles voltem a acreditar.

– Verdade?

– Verdade, Lívia. Verdade mesmo. Tenho certeza!

Lívia havia parado de chorar. Olhava para o irmão apenas dois anos mais velho do que ela como quem olha para um mágico ou algo assim. Ela então deu um abraço nele e voltou para a cama.

Na manhã seguinte, recebeu os presentes com um pouco menos de alegria. Eram presentes de adulto, não de Papai Noel. Não era a mesma coisa. Ganhou beijos dos pais, dos tios e dos avós, depois comeu rabanada e foi para a porta da velha casa olhar a rua.

Passando pela sala viu sua mãe e seu pai olhando os retratos. Em um deles estavam a avó, ela e o irmão. Percebeu que a mãe começou a chorar e o pai passou os braços em volta dela.

– Não chora, meu amor. Calma.

– Eu sinto tanta falta dele. Tanta falta, Márcio!

– Eu sei, eu também. Mas temos a Lívia. Ela tava meio tristinha hoje, deve sentir falta do irmão também.

Lívia olhou para o céu e viu um trenó passar como um risco. Ouviu uma risada e riu também. A voz era do seu irmão. Correu para a sala e abraçou os pais.

– Mãe, vamos comer rabanada?