Trabalho com ensino de línguas há 14 anos. E desde os tempos de faculdade, neste período do início do ano letivo sou sempre questionada por pais e mães sobre matricular ou não os filhos pequenos em cursos de idiomas. Depois que me tornei mãe a pergunta de quando meus filhos começarão a estudar também se tornou frequente. E eu também comecei a pensar sobre os benefícios de matriculá-los na aula de música, na de natação… E então, há de fato algum benefício em iniciar os cursos em tão tenra idade?

A resposta imediata obviamente é o sim. Qualquer professor de inglês saberá enumerar as vantagens à exposição da criança ao idioma, assim como o professor de natação, o de música, o de judô e assim por diante. Sabemos que as crianças, quando estimuladas desde cedo para uma área específica, tendem a assimilar com maior facilidade aquele saber e desenvolver tal aptidão com naturalidade. Antes de sair correndo matricular seu filho, porém, é preciso relativizar e problematizar este sim, pensando sempre no melhor para os pequenos.

A primeira reflexão é quanto ao perfil de seu filho. Precisamos portanto conhecer nossos rebentos, saber do que gostam e como se sentiriam ao entrar naquele curso. Nem todas as crianças são ligadas a esporte, por exemplo. Ou ainda, uma menina que gosta de dançar e pular não necessariamente vai se adaptar à disciplina e dedicação exigida no ballet.

Outro erro comum ao negligenciar o perfil da criança é a comparação com amigos e familiares. Não é porque seu sobrinho é um exímio nadador que o seu filho também será. As crianças são diferentes entre si. Uma atenção especial é necessária aos pais de dois ou mais. Em um mesmo lar os estilos dos irmãos podem ser bem diferentes.

É interessante também pensar no perfil da família, e suas necessidades imediatas. Os filhos de pais que pretendem se mudar em breve para o exterior se beneficiarão com a introdução antecipada ao idioma. Assim também o é para as famílias que frequentam ambientes com piscinas e o curso de natação, neste caso essencial para a segurança dos pequenos.

Precisamos, ainda, refletir sobre quem realmente está interessado no curso escolhido. Muitas vezes vemos os genitores projetando suas expectativas e frustrações individuais como se fossem de seus filhos. O pai que ama futebol precisa saber se seu filho quer mesmo se matricular na escolinha. A mãe que agora adulta gostaria de ser fluente em inglês, mas não pode estudar mais jovem, precisa refletir se a filha quer mesmo começar um nova língua aos três anos ou se ela não está ansiosa para que a filha inicie logo a atividade.

Ainda sobre as expectativas parentais e interesses dos filhos, precisamos ter sensibilidade para apoiar nossos filhos e respeitar suas escolhas fora do padrão. Meninos podem se interessar por dança, meninas podem jogar futebol. Pode ser que vocês precisem peregrinar na cidade para encontrar o espaço dispostos a acolhê-los, mas será importante para a criança sentir-se respeitada em suas escolhas.

Uma vez definido o perfil, precisamos então buscar por boas instituições e profissionais. Existem vários disponíveis no mercado, é preciso pesar todos os prós e contras. Há aspectos além do financeiro para se levar en conta. Não se esqueçam por exemplo do deslocamento necessário e analisem o horário ofertado com atenção. Na prática, uma aula de 40 minutos significa preencher bem mais tempo que isto, se nos lembrarmos do tempo que precisamos para preparar a criança, levá-la até o local, e retornar ao lar. Isto sem falar em conciliar este horário com a soneca ou o para-casa, dependendo da idade.

Mas talvez a reflexão mais importante a ser feita não seja sobre o quando começar ou onde matricular, mas sim o como conciliar as atividades especializadas com a rotina da criança. É notório que os pais da atualidade estão constantemente preocupados oferecer o melhor a seus filhos, e este sentimento tende a levá-los a procurar vários cursos simultaneamente. E daí vemos meninos e meninas aos 2 anos com agendas de mini-executivos, chegando a dedicar 5 vezes por semana do em cursos livres, sem contar as 4 horas padrão da escola maternal. O resultado são crianças sem tempo de ser criança: não têm tempo de brincar livremente, de dormir um cochilo, de exercer o ócio criativo, também importante para o desenvolvimento saudável. Muitos destes pequenos se tornam adolescentes frustados, que por fim apresentam uma enorme resistência às aulas especializadas, com baixo interesse e sempre entediados. Eles já estão ‘de saco cheio’ de tantas obrigações. Ficam então as palavras equilíbrio e bom senso como máximas universais. Se seu filho gosta de futebol mas sua agenda já inclui a natação e terapia 2 vezes por semana, leve-o para brincar de bola na pracinha do bairro no final de semana, ou na quadra do prédio. Aula nenhuma substituirá a sua alegria em o ver interagir com ele.

Uma última observação importante: se sua família valoriza muito as aulas extraclasse, uma dica valiosa é escolher a escola regular que privilegie estes. Há escolas que incluem em sua grade regular aulas de música, idiomas, artes e esportes. Outras têm convênio com profissionais que oferecem os cursos em suas dependências, e assim um tempo precioso de deslocamento é poupado para a criança e para os pais. Procure se informar na escola de seu filho sobre ofertas e convênios. É possível que você procura já está disponível para vocês mais perto do que imaginam.

Todas as questões consideradas, fica a análise final: permitam pois que os cursos cheguem à vida de seus filhos quando eles de fato somarem a eles. Jamais divindo seus sentimentos, diminuindo seu tempo de brincar ou multiplicando sua carga de tarefas. Com certeza eles se beneficiarão se seus pais souberem, com sabedoria, escolher o melhor para eles.