Por Thais Alencar, educadora

Foto: Duorama

Conviver em sociedade é uma coisa danada de interessante. Vez ou outra me pego observando as pessoas a minha volta e fico mesmo intrigada com algumas peripécias que vejo cidade a fora. Quem aí nunca presenciou (ou quem sabe protagonizou) uma das cenas abaixo:

1. Em uma praça sinalizada com um aviso de proibido pisar na grama / subir no banco / andar no jardim haver alguém fazendo o que não se deve;

2. Numa loja, receber o troco a mais, perceber o erro do vendedor mas ainda assim ficar com a diferença;

3. Nas ruas da cidade estacionar em local proibido ou parar sobre calçadas, vagas exclusivas, etc.;

4. No restaurante ou cinema ganhar alguns minutos furando a fila em uma brecha que surge no meio da multidão aglomerada;

5. No teatro, guardar lugar para aquela amiga ou familiar que está chegando agorinha mesmo;

6. No parque, ignorar a fila dos brinquedos e entrar no balanço que ficou vazio rapidamente, afinal é preciso se divertir e não temos tempo a perder: saiu-perdeu-furou-o-pneu!

Tenho certeza que a lista acima poderia ser bem maior, mas acho que já consegui fazer-me entender. São os golpes de João-sem-braço, as manifestações da lei de Gerson, o tão falado jeitinho brasileiro. Não nos enganemos: todas elas são pequenas corrupções.

Sim, todos nós sabemos no fundo no fundo distinguir o certo e o errado. Somos tão conscientes do quão bizarros estamos sendo que inventamos para nós mesmos desculpas para justificar nossas ações inadequadas. Ainda assim, cada deslize é um pequeno delito injustificável e que não poderia acontecer. Mas eles acontecem sim, e bem mais do que deveriam. E pior, nossas crianças estão expostas a eles diariamente, observando em seus pais e aprendendo com eles a como serem mais espertos, quer dizer, medíocres.

Vejamos por exemplo a questão da fila. Se alguém aí disser que gosta de esperar em uma fila, este alguém merece ser canonizado. Sim, é um suplício. É chato, demorado, desgastante, cansativo. Com uma criança a tiracolo então é quase que tarefa hercúlea. Mas é preciso saber conviver em grupo e respeitar o direto alheio. A fila faz com que todos possam usufruir do serviço ofertado, cada um a seu tempo, de forma organizada. Saber esperar é também uma forma de valorizar o que se almeja. Todo o esforço empregado em aguardar por sua vez mostra a importância que se dá à atividade fim: ninguém entrará em uma fila para esperar algo que não deseje ou necessite.

Quando estamos acompanhados de uma criança, toda esta discussão sobre ser ético e agir corretamente toma um novo viés. Estamos falando de esponjinhas que estão sorvendo de nós, adultos, comportamentos, falas, posturas. Eles aprendem conosco a distinguir o sensato do inaceitável. Nosso exemplo moldará seu caráter. Há uma fala de autor desconhecido que diz “Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e, esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”. Pois bem, o que se esperar em alguns anos daquela criança que cresceu recebendo de sua família maus exemplos?

Em tempo de insatisfações políticas e manifestações contra gestores e parlamentares, necessário se faz ser coerente com o que se defende. Será que, nos ambientes que frequentamos, somos sempre corretos? O que podemos mudar em nós mesmos para colaborar com a coletividade? Somos bons exemplos para nossos filhos de cidadãos de bem?

Para auxiliar em nossa autoavalição, deixo vocês com uma das muitas entrevistas com o filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella, que fala com eloquência sobre este assunto.