por Mariana Lacerda, terapeuta ocupacional


Foto: Patrícia de Sá

Nos últimos tempos, tenho recebido no consultório e nos meus atendimentos domiciliares, muitas crianças com dificuldades no brincar que impactam em diversos aspectos o desenvolvimento infantil.
Parece estranho né, já que brincar é uma tarefa praticamente inata e que nos acompanha desde que damos os primeiros chutes na barriga das nossas mães.

Acontece que, por trás dessa dificuldade no brincar, relacionada à socialização, à capacidade de interagir com outras crianças, ao faz de conta, ao planejamento e sequenciamento das atividades, à curiosidade e à vontade de experimentar, está na verdade, uma dificuldade dos próprios adultos que convivem com as crianças.

Não estamos falando de culpa, mas de um limite interno com o qual muitos adultos não têm sabido lidar: o medo. O medo de deixar a criança experimentar, da criança se machucar, da criança não saber se resolver sozinha, da criança entrar em conflito. Enfim, medos e medos dos adultos que vêm interferindo num aspecto extremamente importante da infância e do desenvolvimento, o brincar.

Foto: Patrícia de Sá

Brincar envolve exploração, liberdade, criatividade. Brincar é aprender sobre o mundo através de si mesmo e dos outros, é descobrir seus próprios limites e o limite do outro. Brincar é tentar e ver que pode ir mais, ou tentar e ver que é preciso parar.

Se os adultos impedem ou restringem as crianças dessa experiência do brincar, não será possível para elas desenvolverem suas capacidades e potenciais, muito menos descobrir sobre o mundo como ele realmente é e saber lidar com ele.

Brincar não é ficar só no chiqueirinho, no carrinho, sentado de frente pra tv, ou jogando no tablet. Brincar é desbravar o chão da casa, do quintal, da praça, é comer fruta e se lambuzar, é balançar um objeto e ver no que vai dar, é montar, é ralar o joelho, às vezes dar com a boca no chão, é fazer bagunça, é correr na grama, pisar na areia, é ver bolinhas de sabão, é cantar, é fazer careta no espelho, é bater um objeto na mesa e escutar o som, é ouvir uma história, o barulho da chuva e a buzina do caminhão.

É preciso alertar os adultos sobre seus próprios medos e dificuldades. É preciso levá-los à reflexão sobre si mesmos, para que assim possamos devolver às crianças a chance de voltar a brincar e aprender sobre o mundo da forma mais natural que existe: experimentando!

Que tal? Vamos deixar nossas crianças brincarem? Vamos brincar junto?