por Lucinda Mendonça, psicóloga

Conversando com vários pais que têm filhos menores de sete anos, me chamou a atenção a grande dificuldade que eles estão tendo em lidar com o imediatismo das crianças. A maioria relatou que os filhos não têm paciência para esperar nada, seja para ver o desenho favorito, para esperar que alguém lhes faça algo, ou aguardar em uma fila, por exemplo. A criança quer que tudo seja feito do jeito dela e na hora que ela deseja.

Não quer dizer que isso não ocorra com crianças maiores, mas esta característica está mais evidente na geração mais nova. Esse assunto chamou minha atenção não só pelo lado profissional, mas também pela vivência com a minha própria filha. Busquei informações e levantei várias hipóteses das possíveis causas para essa impaciência. E então, lendo vários artigos de especialistas, pude perceber que a maioria concorda e sugere que esse imediatismo seja causado pela facilidade que essa geração tem de conseguir tudo, o tempo todo.

Na geração dos anos 80, as crianças não tinham à sua disposição um canal de TV com desenhos 24 horas por dia. Quase todos os restaurantes não tinham espaço Kids, ou seja, as crianças ficavam sentadas à mesa com seus pais. Normalmente, não tinham quem fizesse tudo para eles, uma vez que se um dos pais não trabalhasse fora, ainda cuidava dos afazeres domésticos sem uma terceira ajuda. Não havia a terceirização dos cuidados, com uma babá exclusiva para a criança.

Atualmente, a sociedade passou a dar voz para as crianças e a desenvolver milhões de opções tanto para facilitar o cotidiano dos pais com os filhos, quanto para entreter as crianças. Estamos vivendo em uma época que, se não nos policiarmos, seremos atropelados pelos desejos insaciáveis de nossos filhos e isso lhes trará grandes problemas emocionais futuramente.

Não há quem viva sem se frustrar pelo menos uma centena de vezes. Desde pequenas frustrações, como o tipo de feijão do almoço de hoje, até a perda de um ente querido. Aprendemos a lidar com as perdas e decepções quando as vivenciamos ou quando acompanhamos alguém muito próximo passando por elas, pois o exemplo é uma das maiores fontes de ensinamento. Não é nada bom ver os nossos filhos tristes, decepcionados ou frustrados. Mas não podemos colocá-los em uma bolha e retirar todo o sofrimento. Eles precisam aprender a lidar com a dor, com a decepção, com a falta para se tornarem adultos batalhadores e seguros.

Outro fator importante que devemos ressaltar nessa geração é o grau de ansiedade. E isso também se deve à quantidade de opções que estão a seu dispor a todo momento. Mas há pequenas atitudes que podemos fazer para ajudá-los a lidar com tanta informação sem deixá-los extremamente ansiosos e impacientes. Como, por exemplo, fazer combinados do tipo: se estiver brincando, não vai deixar a televisão ligada, hora de estudar e de fazer as refeições não pode ter brinquedos por perto.

É importante também evitar fazer tudo por eles, pois assim terão noção de que para se fazer qualquer coisa, necessita-se de um tempo específico. Também é importante ensinar não dando tudo o que a criança deseja o tempo todo. Não há nada de errado em fazer um agrado material para seu filho de vez em quando, mas a criança julgar que você tem a obrigação de sempre lhe dar o presente que ele quer na hora que ele pede, reforça o imediatismo. Para lidar com isso no futuro vai ser muito mais doloroso, tanto para os filhos, quanto para vocês. E por último, mas não menos importante, antecipar para a criança as situações que podem acontecer. Se vocês estão saindo para ir ao supermercado, avise com antecedência que o local deve estar cheio e possivelmente haverá filas. Para entretê-los, dê tarefas como empurrar o carrinho, colocar as compras nas sacolas etc.

Quanto mais a criança se sentir útil e próxima de seus pais, menos ela vai exigir que as coisas sejam do jeito dela e menos ansiosas ficarão. Pois para elas os brinquedos, os eletrônicos e os desenhos são importantes, mas nada substitui a presença, o amor, o afeto e a atenção dos pais.