Por Sandra Rodrigues, psicóloga




Foto: Patrícia de Sá

Estou aqui escrevendo mais um texto pro Na Pracinha, e agradecida pela oportunidade de compartilhar algumas ideias ligadas a uma cultura de paz com vocês. Estarei periodicamente escrevendo por aqui e gostaria de ir apresentando cada vez mais a CNV (Comunicação não Violenta) na perspectiva da relação com as crianças.

Quem não viu os últimos textos pode acessá-los aqui e aqui. A CNV é uma proposta que se enquadra em um novo paradigma. Ela nos alerta que nossa comunicação no geral é bastante violenta, mas que isso não é algo intrínseco ao ser humano, mas apenas uma forma aprendida e cultivada. Para a CNV, a natureza humana é compassiva, e para nos comunicar não violentamente, bastaria acessar o que temos de mais autêntico em nós mesmos. E é aí que se encontra nosso maior desafio e nosso maior presente ao conviver com crianças.

Pra entender melhor do que vou falar nesse texto, peço que imagine a seguinte situação: você chega no quarto da sua criança, cansado/a pelos compromissos do dia e encontra sua criança com a roupa toda molhada. Qual seria sua primeira reação? O que falaria primeiro? Como falaria? O que faria?
(Interrompa um pouco a leitura e pense um minutinho sobre isso.)

Espero que tenha feito essa pequena reflexão. Tente manter esse seu material interno presente. Assim ficará mais claro o primeiro passo da CNV: a observação sem julgamento. Esse passo é tão espontâneo nas crianças, que, por vezes, elas nos chocam com suas falas e atitudes.

Segundo a Antroposofia, a criança pequena, até os 7 anos, percebe o mundo como bom. E corre para explorá-lo com toda a sua intensidade. A Psicologia também nos diz que a criança pequena seria como um grande órgão sensorial a captar todo o exterior, como se fosse programada para tocar e experimentar tudo ao seu redor. E as mães e pais falam que a criança pequena não para quieta ou que é uma esponjinha a captar tudo. A criança observa, experimenta, acolhe tudo que vem do mundo exterior – independente se lhe causa riscos ou satisfação, ela está aberta a tudo com muito pouco julgamento.

Essa realidade parece catastrófica a muitos pais e cuidadores, mas é somente assim que ela se desenvolverá e apreenderá o mundo.

Então, o que propomos é que os pais se comportem como crianças de 2 ou 5 anos? Sim! Mas somente em um primeiro momento. A observação sem julgamento nos convida a olhar a atitude ou situação que
nos incomoda com o olhar de uma criança: com abertura, com desejo profundo de compreensão e entendimento, sem fazer um julgamento imediato ou prévio. Isso não vai parar por aí (há mais três passos na CNV, lembram?), mas é fundamental que comece assim.

Então, volte na situação imaginada, da criança com a roupa toda molhada no seu quarto. Tente pensar em uma forma de somente observar a situação, sem emitir julgamentos. Veja todo o cenário, cada coisa que está compondo a brincadeira da criança que culminou na roupa toda molhada. Vai perceber tinta derramada na mesinha infantil e que um pouco caiu no brinquedo preferido da criança. Vai perceber que um paninho sujo de tinta está por ali. E uma vasilha com água. E um olhar alegre na criança
terminando de esfregar o brinquedo, já quase todo limpo. Diante dessa observação detalhada, sem julgamento prévio, qual seria sua percepção? Seu sentimento? Sua ação?

A observação sem julgamento não é somente o primeiro passo da CNV: é um primeiro desafio. Ela nos convida a quebrar o hábito tão enraizado culturalmente de julgar primeiro e observar depois. Ainda mais diante das ações de uma criança. Há alguns julgamentos bastante comuns em relação a crianças que nos dificultam observá-la verdadeiramente: ela é manhosa, ele é desastrado, ela não sabe escutar, ele só faz pra me provocar, ela é burra, ele é teimoso; isso beira o interminável…

Somos tão bons em julgar que isso é quase automático em nós. Isso faz com que uma escuta verdadeira ao outro e a si mesmo seja quase impossível. O que se propõe aqui é uma mudança de olhar, de paradigma. Mas isso significa permitir que a criança faça somente o que ela queira, explore o que quiser do mundo, correndo riscos para si mesma e machucando os outros ao seu redor? Certamente não. Há muita confusão entre escuta autêntica, empatia, respeito à criança e negligência, quebra da ordem (natural e necessária entre pais e filhos) e inabilidade.

O exercício é de suspender o julgamento para melhor enxergar os fatos, os sentimentos da criança, as necessidades dela por trás desses sentimentos. Para enxergar também seus sentimentos, suas necessidades e valores e o que deseja pedir a criança diante dessa situação. Não se trata de perder o poder de crítica, descartar seus valores ou se eximir de seu papel como referência no desenvolvimento de seu filho. Trata-se de ampliar sua capacidade de ver e de se encontrar com a criança. Não há lugar de encontro onde só há críticas e julgamentos –  esse aí é o lugar do medo, da dúvida, da descrença.

Seguindo o caminho da observação sem julgamento, a criança também o observará. E, aos poucos, construirá dentro dela o caminho de lidar com os desafios e situações de conflito com clareza da situação e do que precisa para solucioná-los. Boa parte do aprendizado infantil se faz por experimentação e por imitação, tornando o exemplo e a forma como os adultos se relacionam com ela altamente significativos. E os maiores modelos são aqueles com quem ela tem maior vínculo. E esse maior vínculo pode ser exatamente você, querido leitor.