O pediatra defensor do brincar livre e lá fora, uma grande referência pra nós, esteve em BH, no projeto 1,2,3 e já! do Sesc Palladium {confira aqui um resumo da palestra}. E a gente não se contém de felicidade porque o Dr. Daniel Becker, que é pioneiro no Brasil na Pediatria Integral (prática que amplia o olhar e o cuidado para não apenas tratar e prevenir doenças, mas promover o bem-estar da criança com a participação da família), defensor do brincar lá fora {já assistiu a palestra dele no Tedx? aqui!}, concedeu uma entrevista super especial para o Na pracinha.

Suas respostas nos motivam ainda mais para defendermos a cultura da infância e o resgate do brincar livre, lá fora, incentivando as famílias para que redescubram Belo Horizonte.

Na pracinha: Como incentivadoras dos passeios ao ar livre, gostaríamos de saber de que forma a falta do “brincar lá fora” pode estar interferindo na medicalização da infância.

Daniel Becker:
À medida em que as crianças brincam menos lá fora, que é tão importante para a essência da infância, que ficam confinadas, sujeitas aos excessos de eletrônicos, sujeitas à televisão, à mercantilização, à propaganda e a tudo que vem junto com isso – a futilidade, os valores negativos, a publicidade de comida tóxica e, portanto, o desejo de brinquedos caros e comida porcaria – elas se tornam sintomáticas. A sociedade, em vez de responder com mais pracinha, mais ar livre, mais natureza, mais brincar livre, cria um outro fator negativo que é o processo de medicalização. Então, elas (a falta do “brincar lá fora” e a medicalização da vida) estão ligada nesse sentido. A falta da vida ao ar livre é um dos fatores que leva as crianças a ficarem desatentas, rebeldes, obesas, insones etc e aí vão certamente receber esse absurdo que é a medicalização, especialmente a medicalização psiquiátrica. E o fato delas ficarem confinadas, acaba fazendo com que elas tenham mais alergias, mais infecções, então vão usar mais remédios em geral. Não apenas mais remédios para TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), mas mais corticoide, mais antibiótico, mais porcaria.

NP: A interação das crianças com a natureza pode interferir em sua saúde física e mental? De que forma?

DB: Isso já é mais do que demonstrado cientificamente. A natureza tem um poder curativo sobre a infância em todos os sentidos. Na saúde física, ela vai desenvolver a forma física da criança, a coordenação, a força muscular, vai desenvolver a imunidade. Do ponto de vista mental, vai melhorar a atenção, a concentração, a memória. Vai reduzir a insônia, vai diminuir as alergias, vai fazer com que ela tenha uma experiência mais empática, vai conviver com a família. Muitas vezes, se os espaços forem democráticos, ela vai conviver com crianças de outras origens, cores, culturas, de outros extratos sociais. Isso é muito bom. Desenvolver a tolerância, a empatia, a brincadeira, especialmente o brincar livre. Brincar livre é muito importante para as crianças. Desenvolve a capacidade de decisão, a avaliação de risco, a colaboração, a empatia, a coragem, a força física. Tudo isso o brincar livre vai desenvolver, é um ensaio para a vida adulta. Especialmente brincar livre na natureza faz a criança feliz, e ponto. Isso é o maior valor possível. A criança fica feliz e fica bem vivendo aquilo que é a essência da infância. Brincar livre é a essência da infância na minha opinião. Então, é claro que faz muito bem.
NP: A cada dia, mais e mais crianças têm sido diagnosticadas com TDAH e variáveis, crianças consideradas agitadas, sem concentração. A falta do brincar e do tempo livre para ser criança, interferem nesses diagnósticos precoces?

DB: Quanto mais confinadas as crianças estão e mais submetidas a essas intoxicações diversas que a sociedade está impondo, maior a tendência delas terem sintomas do tipo TDAH. Mas a gente deve saber o seguinte: existem crianças com TDAH, que precisam realmente de medicação. É uma doença muito grave, que pode ser muito prejudicial para a família, para todo o entorno dela. Isso é uma coisa genética. Mas é claro que o estilo de vida da família vai favorecer ou não o aparecimento dos sintomas do tipo TDAH, que podem ser interpretadas desta forma, mas que na verdade são falsos diagnósticos. Crianças sintomáticas simplesmente por estarem sendo massacradas por esses fatores todos que a gente está vendo. O brincar livre, na natureza, o tempo para ser criança, é um antídoto fundamental para isso tudo e é uma das coisas que vai evitar o uso da medicação.
NP: Para que haja um verdadeiro benefício na saúde das crianças, é preciso levá-las para brincar ao ar livre todos os dias, ou apenas nos finais de semana basta?

DB: Existem limitações para os pais levarem as crianças para brincar. Não é fácil nos dias de hoje, não é fácil para as famílias, especialmente as de baixa renda, que moram em lugares onde são menos acessíveis as praças e os espaços verdes, que moram longe do trabalho, que levam horas no trânsito, nos ônibus. E mesmo nas famílias de classe média e alta, que chegam tarde em casa e têm questões de segurança, ficam com medo – os espaços públicos mal cuidados ou pouco frequentados interferem na questão de segurança, haja dificuldade. A gente não deve culpabilizar as famílias pela falta do brincar na natureza, ao ar livre. Muitas vezes, elas têm uma cultura de ficar em casa. As pessoas são quase que oprimidas por essa cultura de consumo de televisão, tablet, um consumismo que faz com que a gente se afaste da natureza. Então, cada momento que é possível tem valor. Se é possível chegar em casa às 19h da noite e, antes de entrar, dar uma volta de 15 minutos no quarteirão com a criança, tem valor. Deixá-la brincar com a pedrinha do canteiro da árvore da calçada já é bom também. É melhor do que ela ficar em casa, do que ficar vendo desenho na televisão. Qualquer experiência ao ar livre, qualquer experiência na natureza, independentemente se for num parque, se for de 6 minutos ou de 2 horas, é válida. Então, o que a gente consegue, a gente deve oferecer. E, se não consegue muito, fique feliz de oferecer um pouquinho. Já é um esforço meritório.
NP: Até que ponto utilizar brinquedos eletrônicos para entreter as crianças pode prejudicar seu desenvolvimento? Como evitar esta utilização, com a rotina estressante que os pais vivem atualmente?

DB: O brinquedo eletrônico – carrinho, aparelhinhos eletrônicos, sem ser os de tela, são geralmente bobos, de pouca utilidade, porque eles fazem alguma coisa sozinhos. Então, a criança fica fascinada durante 10 minutos e depois ela se desencanta completamente, porque aquele brinquedo não interage com ela. Muito mais bacana é ela criar roteiros a partir da sua própria imaginação. Então, brinquedos como bonecos, caixas, carrinhos que ela controle, que ela vai inventar a história, são mais bacanas para a criança e geralmente a envolvem mais.
Já as telinhas, smartphones, tablets e computadores, especialmente a televisão, aí sim, podem ser muito mais tóxicos. Mas a gente não pode esquecer que eles fazem parte da vida cada vez mais de adultos e crianças. A gente não pode esquecer que o smartphone é hoje a plataforma da vida, onde tudo acontece. É onde todos nós vivemos muito ligados. É nossa fonte de notícias, amigos, compras. É despertador, personal trainer, médico, leitura, cinema, entretenimento, vídeo, fofoca, rede, tudo acontece ali no telefone. Então, é óbvio que essas plataforma digitais estão cada vez mais presentes em nossas vidas e essas crianças vão naturalmente passar uma boa parte do seu tempo ali. O que a gente pode fazer é evitar o excesso. Evitar, primeiro, que isso seja feito de forma muito precoce, porque em bebê isso é prejudicial Tanto pela radiação do telefone, quanto pela própria interatividade com o telefone ou tablet, que para o bebê é muito ruim. Então, quanto menos, melhor.
A recomendação a Associação Americana de Pediatria, por exemplo, era de nenhum uso até 2 anos de idade, mas agora já tolera meia hora, uma hora, com interatividade com o pai ou com a mãe. Então, as coisas também vão mudando, porque o fato que esses aparelhos vão fazer cada vez mais parte da nossa vida.
O que a gente pode fazer é equilibrar. Deixá-los brincar com aquilo que vai ser quase a extensão do corpo deles, mas também tirá-los desse lugar para levá-los para brincar na vida. A vida não pode se dar só no telefone. Ela tem que se dar também nos brinquedos em casa, na pracinha, na escola, na interação com os amigos, nas refeições com a família, que devem ser feitas com os telefones desligados, tudo isso é muito importante. Então, sair de casa e ir para a rua é um ótimo antídoto para esse tempo de aparelhos.