Aqui nesta praça vocês já ouviram falar muito bem do trabalho do carioca Daniel Becker {confira nossa entrevista com ele aqui}, pediatra, sanitarista e responsável pela página Pediatria Integral. É que o movimento Na pracinha é, desde sua criação, um espaço para difundir o “brincar lá fora”, e Becker comunga deste mesmo ideal, como vocês devem ter percebido na entrevista da semana passada.
No último dia 12, Beagá recebeu a visita do pediatra para uma palestra. A equipe do Sesc Palladium, através do projeto 1, 2, 3 e Já, foi a responsável pela organização deste evento, e nós, como fãs de carteirinha do trabalho do Daniel, não podíamos deixar de conferir e prestigiar. Junto a pais, mães, profissionais ligados à infância e até mesmo algumas crianças, desfrutamos de uma excelente apresentação a cerca da Medicalização da Vida. E é sobre isto que vamos lhes contar agora. Senta, que lá vem história! =)
A cultura do medicamento se tornou um fator preponderante de nossa sociedade ocidental. O homem contemporâneo entende que para se ter saúde é preciso consumir os produtos fármacos corretos para tratar dos males que o acometem.  Aprendemos, a cerca de 150 anos, que uma doença tem por agente causador um agente externo, uma bactéria, por exemplo, e que é possível combater o responsável por aquela doença através do uso de remédios. Fatores ambientais, principalmente a partir da década de 1950, como urbanização, saneamento, presença de geladeiras em casa, também diminuíram a incidência de doenças, mas assimilamos este modelo doença/sintoma-medicamento de tal maneira que entendemos que, para todo desequilíbrio em nosso organismo, faz-se necessário consumir a pílula dourada da salvação.
Segundo Becker, este paradigma da medicalização é extremamente arraigado em nosso comportamento, e é reforçado tanto pelas práticas de medicina moderna quanto pelas empresas que lucram com o consumo de fármacos. Nossa sociedade de consumo entende que é preciso não só adquirir os remédios corretos, mas também todos os produtos que possam aparentemente promover a saúde: planos de saúde, vacinas, suplementos vitamínicos, aparelhos de ginástica. É um mercado onipresente em nossas vidas e altamente rentável, pois hoje ele vende não só para aqueles que estão doentes, mas também para os sãos.
É difícil mensurar até onde vai a influência da medicalização. O saber científico, por exemplo, antes difundido através de pesquisas idôneas e neutras, hoje muitas vezes se resume à apresentação de resultados mascarados por interesses escusos, uma vez que não raro são financiados pela indústria farmacêutica. É bem possível que apenas sejam divulgados os resultados que lhe favorecem. Congressos, atualizações e periódicos também são patrocinadas por este nicho de mercado. O setor de publicidade age também de forma a manipular nossa visão, usando jargões e explicações aparentemente científicas para justificar e estimular o consumo dos produtos.

O pediatra nos chama atenção, porém, para o fato deste paradigma medicamentoso não contemplar a promoção da saúde em sua plenitude. Dentre as doenças mais frequentes para explicar a mortandade nos dias atuais, temos por causa não agentes externos, como no passado, mas fatores genéticos e, principalmente, nosso estilo de vida. Obesidade, diabetes, hipertensão, câncer, doenças cardiorrespiratórias, depressão, etc. são doenças crônicas não-transmissíveis e que não são tratáveis pelo modelo da medicalização. Olhamos para essas doenças como olhávamos para as outras. Como não entendemos que elas são resultado de hábitos de vida, queremos tratá-las com remédios. Mas eles não resolvem estes problemas. Apenas geram um lucro exorbitante para o mercado farmacêutico.
Daniel exemplificou sua fala com este trabalho do cartunista argentino Quino, que ilustrou brilhantemente este paradigma.

A infância também é vítima da medicalização da vida. O consumismo e a cultura do medicamento estão fortemente presentes na vida de nossas crianças desde sua gestação, passando pelo nascimento e a epidemia de partos cesáreos desnecessários que vergonhosamente assola nosso país. Ainda nos primeiros meses de vida dos bebês suas mães são convencidas de que os problemas da amamentação podem ser facilmente solucionados com uso de fórmulas ou leites artificiais. Familiares e até mesmo pediatras desinformados engrossam o coro da mamadeira e incutem a ideia engenhosamente elaborada pela indústria de que o leite materno pode ser substituído sem perdas. Não faltam nomes criativos para reforçar que as fórmulas são ‘premium’, ‘supreme’, enfim, o melhor que um pai pode oferecer a um filho. Afinal, se você ama o seu bebê você paga (caro) pelo que há de melhor disponível, como nos lembram os pesados jargões publicitários.
O estilo moderno de vida também está longe de favorecer o desenvolvimento integral dos pequenos. Estamos confinando nossos filhos em espaços fechados, presos a telinhas que estimulam o tempo todo o consumo de novos produtos. Entendemos que o lazer se resume à ida aos shopping centers, que nada mais são do que espaços de consumo. Como precisamos trabalhar para sustentar todo este consumo, nossas crianças passam várias horas em creches e escolas. Se somos pais preocupados com o melhor para nossos filhos, precisamos enriquecer sua formação consumindo cursos livres: aulas de reforço, artes, idiomas, música, esportes. Chegamos em casa, cansados da rotina, e a criança quer atenção. Não entendemos a forma espontânea e agitada dela ser e se manifestar, e pior, nos preocupamos em domar estes impulsos, afinal a sociedade não pode tolerar crianças mal-educadas, irritadas e desatentas. Então, vamos médica-lás! Já existe, inclusive, um nome cientificamente desenhado para birra: transtorno de oposição precoce infantil (!). O diagnóstico de hiperatividade e déficit de atenção foram banalizados e o uso de ritalina está amplamente difundido. O mercado de antidepressivo está crescendo na infância entre crianças de 2 a 6 anos. =(


Mas de que nossas crianças verdadeiramente precisam? Para Daniel, elas precisam de brincar, de tempo junto aos pais e da natureza. Parece óbvio e simplório, mas é de extrema importância.
Vivemos uma cultura de redução do livre brincar. Seja em casa ou na escola, não há tempo suficiente para brincadeiras, e quando ocorrem são no confinamento e mediadas por adultos. De acordo com o pediatra, o verdadeiro brincar deve ser autocontrolado e autodirigido, ou seja, feito por e pelas crianças. Brincar é a maneira que a natureza criou para nos prepararmos para a vida adulta. Somos mamíferos, e todos os filhotes de mamíferos brincam. É através da interação, da experimentação e da exploração do ambiente que os animais se desenvolvem. Aprendemos assim a conviver, cooperar, controlar os impulsos. Nas palavras do pediatra: “Brincar é a maneira que a natureza criou para que as crianças adquiram as habilidades que precisam para se desenvolver como adultos saudáveis e funcionais.”. O livre brincar desenvolve habilidades não-cognitivas de extrema importância, desenvolve a empatia, melhora a aprendizagem formal e promove relaxamento, fantasia, estado meditativo, sono saudável e atenção: “faz a criança mais feliz”!

A perda da convivência com os pais é uma das piores coisas que pode estar acontecendo na infância. Só é possível educar alguém se conhecemos essa pessoa, se somos íntimos dela. E para estarmos conectados a nossos filhos precisamos estar presentes. Becker nos lembra que qualquer momento real de convivência com os pequenos é válido. Por interação real ele entende momentos de interação pai-filho sem aparelhos eletrônicos, com o foco da atenção todo na interação. E quanto tempo deveríamos destinar a eles? Em uma conta jocosa, o pediatra sugere algo em torno de 2h. O raciocínio faz alegoria ao dízimo dado à igreja. Se nossos filhos são o que há de mais sagrado em nossas vidas, deveríamos dar a eles 10% de nossa maior riqueza, o tempo. Para um adulto que dorme em média 6-7h por noite, isto representaria 170 minutos, ou 1h40min. Parece quase impossível de gerenciar, mas o objetivo desta conta é provocar em nós a reflexão: o que temos valorizado nos dias de hoje? Em que investimos o nosso tempo?

Daniel apresentou também a ideia de pais helicópteros – aqueles que, dominados pela culpa, cercam a criança o tempo todo e não lhes dão espaço para se desenvolverem. Educam seus filhos sem ouvir o não. Não se pode machucar; não pode perder; não se pode entediar. A criança não é exposta ao risco e aos problemas e assim não aprende a avaliá-lo e resolvê-los. Não aprende a gerenciar conflitos, suportar frustrações. Ela é o centro de todas as atenções e não desenvolve a empatia ou visão do outro.

Por fim, o pediatra do brincar lá fora discursou com eloquência sobre a relação da criança com os espaços abertos. A natureza é um ótimo lugar para as crianças se desenvolverem. Ela afasta a criança da tela e traz consciência; reduz o consumismo excessivo; promove o bem estar físico e mental; melhora a concentração, memória, imunidade, sono, alimentação, escolaridade e socialização; reduz a obesidade, hiperatividade, agressividade, alergias; permite ainda que eles tenham uma experiência espiritual: senso de maravilhamento, reverência, sensação de conexão, de deslumbramento.

E como podemos oferecer o brincar livre e em espaço aberto em nossas cidades? É preciso abraçar as causas ambientais e engajar em ações de cidadania para transformar a realidade. Buscar ocupar os espaços públicos, resgatar as áreas verdes de convivência. Acompanhar os movimentos que já existem e trabalham pela infância livre de consumismo e o livre brincar, como o Na pracinha (sim, ele citou o movimento Na pracinha com direito a print da nossa fanpage no telão. E claro, a gente quase morreu de orgulho e felicidade quando viu nosso trabalho reconhecido publicamente por alguém tão admirado por nós!),

Para encerrar sua fala, Daniel mencionou o movimento da Mata do Planalto, ação que acontece neste momento aqui em Belo Horizonte e que merece ser acolhida por todos nós. Ele exibiu o vídeo feito pelo movimento, um filme delicado e que tem tudo a ver com sua fala. Confiram só AQUI.
Obrigada, Daniel, pelo seu trabalho ímpar, pelas inspirações proporcionadas naquela noite e por nos dar mais ânimo para continuar nosso trabalho: cuidar de nossas crianças, lutando pelo brincar livre – e lá fora! Foi um prazer enorme poder estar presente neste bate papo, e esperamos poder revê-lo mais vezes em terras mineiras. 

Fotos: Tarcisio de Paula
Colaboração: Thaís Alencar

Felizinhas depois de assistir ao pediatra do brincar lá fora :)