por Carolina Maciel Horta, psicóloga

 

Foto: Patrícia de Sá

A brincadeira livre nada mais é do que a brincadeira natural da criança, ou seja, a brincadeira espontânea, sem direcionamentos. É aquela brincadeira que surge das necessidades e dos interesses próprios e se desenvolve a partir da imaginação e criação infantil, fruto do mundo interno da criança.

Então, quando falamos em “brincar livre”, estamos falando da brincadeira que não é conduzida
por um adulto e que pode acontecer coletivamente – a partir do encontro entre crianças, onde cada uma contribuirá com suas ideias, desejos e fantasias – ou individualmente, pois as crianças não precisam necessariamente de parceiros para criar e para brincar. Entretanto, essa modalidade de brincadeira tão fundamental, não só para o desenvolvimento infantil, como também para a vivência plena da infância, infelizmente está cada vez menos presente em nossa sociedade. E por quê?

Os motivos são vários e um dos principais deles é a falta de tempo e espaço na vida das crianças
para esse tipo de brincadeira. A maioria das pessoas mora em apartamento e não tem o hábito de
utilizar os espaços públicos e ao ar livre. Grande parte das escolas, mesmo de Educação Infantil,
valoriza mais as atividades direcionadas e em sala de aula do que aquelas que surgem da liberdade e da criatividade infantil.

O que também temos visto com bastante frequência é o aumento dos compromissos extraclasses
e extracasa na vida das crianças, já a partir dos 3, 4 anos de vida. Algumas, ainda nessa tenra idade,
já tem uma agenda tão cheia quanto a de um adulto. E quando sobra um tempinho livre, elas
acabam sendo seduzidas pelo mundo da tecnologia e seus encantos: Tvs, tablets, celulares,
videogames etc. Um jeito fácil e prático de “acalmar” as crianças depois de tantas tarefas e um
longo dia de trabalho.

Outro importante fator é a preocupação excessiva de algumas famílias com o desenvolvimento de
habilidades específicas das crianças. Muitos pais, cada vez mais cedo, têm buscado aulas e
atividades especializadas (e direcionadas!) para que seu filho não “fique pra trás”. Aulas de inglês, de iniciação esportiva, de natação, de ballet e até ginástica! Nos atuais grupos virtuais de mães é comum a sugestão de diferentes aulas especializadas, pois “fulano precisa aprender isso ou aquilo“. Indicações que, além de desconsiderar as subjetividades e interesses próprios das crianças, na maioria das vezes, nem fundamento real tem. E a mãe que antes não pensava em matricular o filho em nada disso, acaba reavaliando o que é “melhor” para ele.

Seguindo a mesma lógica competitiva, várias escolas, desde a Educação Infantil, dão demasiada ênfase ao desenvolvimento intelectual e desconsideram ou não valorizam outras habilidades, que na verdade são mais essenciais nessa fase da vida do que aprender a contar e a reconhecer letras. E o que essas escolas ou atividades extraescolares e extracasas têm em comum? Normalmente, excessivo direcionamento do adulto e exigências motoras e cognitivas que nem sempre são condizentes com a idade das crianças ou respeitosas com o ritmo de cada uma. Travestidas de “aulas lúdicas”, várias atividades acabam ganhando o gosto dos pais e cabe a nós refletir sobre o verdadeiro conceito de ludicidade que, primeiramente, não se restringe aos jogos e brincadeiras e nem é sinônimo deles. Lúdicos são aqueles momentos que proporcionam prazer, integração, encantamento e envolvimento. A ludicidade está presente no processo e não no objetivo final, ou seja, ela se dá na ação, na interação, na criação, na união de pensamento e sentimento. Quando a brincadeira ou atividade é conduzida o tempo todo por um adulto, com a finalidade de fazer a criança chegar a um determinado aprendizado, ela pode perder o seu caráter lúdico e criativo.

Outro equívoco comum acontece quando as crianças entram no Ensino Fundamental e têm o seu tempo para brincar reduzido de forma drástica. Os interesses nessa idade mudam, mas de maneira gradual, e, por isso, precisamos sempre garantir que elas tenham tempo para o brincar livre.

Foto: Patrícia de Sá

Mas para brincar livre, a criança não precisa estar longe do adulto ou ficar sem interagir com ele. O adulto, seja ele o pai, a mãe, a professora ou qualquer outro cuidador, pode atuar como observador, mediador ou até mesmo fomentador da brincadeira, apresentando recursos, trazendo elementos, transmitindo jogos e brincadeiras da cultura infantil.

E quais são os brinquedos que mais favorecem o brincar livre? Aqueles simples e pouco estruturados, como tecidos, tocos de madeira, terra, areia ou objetos comuns de uso doméstico, que podem se transformar naquilo que a imaginação da criança quiser. Para brincar livre, a criança não precisa necessariamente de brinquedo, mas ela precisa criar, imaginar, fantasiar.

E como benefícios do brincar livre temos uma lista enorme. A interação com o meio promove descobertas incríveis, principalmente se a criança tiver oportunidade de observar, explorar e experimentar as possibilidades de corpo e alma. Ao pular, correr, subir, descer, cavar, fazer
castelos, amarrar cordas, fazer experimentos e experiências ela desenvolve a motricidade ampla e
e fina, o equilíbrio, a destreza, a força, a coragem e a autoconfiança.

Se ela pode criar, imaginar e fantasiar isso contribuirá para o desenvolvimento da criatividade, da
resiliência e da autoestima. Se a brincadeira acontece em grupo, ela ainda favorece a capacidade
de socialização e tudo que deriva dela: empatia, respeito, coletividade e o desenvolvimento ético
e moral.

E se a gente proporcionar a brincadeira livre ao ar livre, em contato com a natureza, ainda contribuímos para a saúde física das crianças e para a formação de seres que que respeitam o meio ambiente por se verem parte dele.

E é por isso tudo e por trazer felicidade às crianças que o “brincar livre” se faz cada vez mais urgente e necessário à infância. Brincar? Sim, só brincar!